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Moto boa é a dos nossos sonhos ou a que cabe melhor em nosso orçamento?

Roberto Agresti

Quando o assunto é a escolha de uma moto, a distância entre o sonho e a realidade às vezes pode parecer bem pequena. Uma das questões mais torturantes gira em torno do que vale mais a pena: uma usada mais potente e emocionante, ou um modelo menos excitante, com menos quilômetros, quem sabe até nova?

Oh, dúvida! As motocicletas estão entre os mais fascinantes veículos criados pelo homem. A maioria de nós as escolhe mais com o coração do com o cérebro.

Sob qual ponto de vista faz sentido, por exemplo, pagar R$ 15 mil por uma Honda CB Twister 0km, com três anos de garantia, cujo motor monocilíndrico de 250 cc desenvolve nada empolgantes 20 cavalos?

Com R$ 2 mil a mais é possível colocar na garagem (para ficar na mesma marca) uma Honda CB 600F Hornet fabricada em 2005, cujo motor quatro-cilindros em linha rende cinco vezes mais potência e permite acelerações de esticar os braços. Tentador, não?

Qual o seu uso? – Uma passeada pelos sites de compra e venda de veículos poderá transformar sua noite de distração em uma madrugada de dúvidas. A quantidade de modelos de inegável apelo — estético, tecnológico ou ambos — que o mercado oferece por uma cifra em torno dos R$ 20 mil é de tirar o sono mas… vale trocar razão por emoção?

Depende. A primeira pergunta que você tem de obrigatoriamente responder, é “para qual finalidade quero a moto?”

Seja honesto e se a resposta for “para satisfazer um desejo pessoal”, realizar um sonho, um capricho, vá em frente. Compre o que seu coração mandar e sua grana puder. Dane-se a racionalidade! Dinheiro é, inclusive, feito para realizar desejos malucos.

Nada como agir por impulso e se sentir plenamente feliz pois, no fundo, você sabe que não irá sossegar sem se dar o presente. Presente de grego? Talvez!

Por outro lado, se a resposta for “para ser um meio de transporte” ou, “para viagens de final de semana”, é melhor pensar duas vezes, usar seu lado racional.

Tamanho maior, gasto maior – Premissa básica e muito óbvia: motocicletas são, como qualquer tipo de veículo, sujeitas a desgaste. Por melhor que tenha sido a manutenção da fascinante máquina em que você está de olho, lembre-se que suas entranhas podem esconder surpresas desagradáveis.

Nem é uma questão de confiar ou desconfiar do dono anterior, no caso de usadas. Ou da mecânica de fábrica. Mas sim lembrar que a associação de quilometragem com idade é sempre implacável, qualquer que seja o veículo.

Escolher uma motocicleta de elevada cilindrada – acima de 600 cc – com muitos quilômetros rodados e/ou anos de estrada para usar no dia a dia é uma escolha temerária. Fora o consumo de combustível mais elevado do que o de motos com motor menor, a manutenção é sempre dispendiosa e complexa.

Sem considerar problemas trágicos como um superaquecimento que empene o cabeçote, em válvulas “engolidas” pelos pistões naquela arrancada mais afoita — ou ainda episódios mais trágicos decorrentes de acidentes.

Imagine que a simples troca do kit de relação, o famoso trio coroa/corrente/pinhão, de uma moto de 600 cc ou mais significará gastar o triplo do valor do que a mesma operação em uma 250-300 cc: mais ou menos R$ 1.000, contra R$ 300 nas menores.

O mesmo vale para outro item de desgaste frequente e para o qual não dá para fazer vista grossa, pastilhas de freio. Na moto pequena, R$ 100 resolvem o problema. Nas grandes e seus discos duplos na dianteira, considere algo em torno de R$ 1.000 para a mesma operação. Quanto aos pneus, a música é parecida: mais borracha é quase sempre sinônimo de maior preço, inclusive pela tecnologia que pneus feitos para rodar a 200 km/h exigem.

Atenção à segurança – Mencionar a velocidade me lembra outro questionamento bem necessário na hora de cogitar uma moto maior, e tem a ver com a realidade de nossas rodovias.

Para andar a no máximo 120 km/h, ter muitos cavalos disponíveis, que você sequer usará pode ser frustrante, não? Depende!

Ter potência à disposição é também fator de segurança em uso rodoviário. Em ultrapassagens, a aceleração poderosa pode fazer a diferença entre a manobra bem sucedida e o desastre, e aí voltamos à pergunta: “para que finalidade quero a moto?”.

Se for “para viajar”, os 20 cavalos da racional CB Twister 0km podem ser uma escolha errada, assim como os 100 cavalos da Hornet com dez anos nas costas têm potencial de risco no aspecto “confiabilidade”.

Marcar a coluna do meio é o melhor: buscar algo menos rodado e dispendioso do que a sedutora 600 tetracilíndrica e menos manca do que a bem intencionada 250, que certamente ficará muito mais à vontade na cidade do que na rodovia.

Enfim, parte do recado está dado: pense no propósito e na sempre fundamental saúde do veiculo, o que só rola com boa manutenção.

Certamente há outros aspectos a favor e contra ao escolher uma moto menor e nova ou uma maior, madura e provocante: seguro, disponibilidade de peças, o olho grande da bandidagem… . A pergunta “para qual finalidade você quer a moto?” é e sempre será o fundamento da uma boa escolha.

E importante: fuja como o diabo foge da cruz de peças sem procedência comprovada, e que podem fazer você, ingenuamente, acreditar que Papai Noel existe e mora na internet. Milagres não existem e manter seu modelo vintage será mesmo complicado. Sem demanda não há mercado, sem cliente para peças sem procedência, não haveria roubo.

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