Notibras

Nada como uma confraternização natalina

Não costumo escrever sobre o Natal, talvez porque, quando criança, ficasse tristíssimo ao ouvir o verso “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, e tudo o que vem depois.

Mas escrevi, sim, um conto natalino. Mando pra vocês. Boas festas.

O peru do Natal passado

Fui convidado para a ceia de Natal na casa de Marta. Ou melhor, fui intimado a ir e a confraternizar com os presentes, pois, segundo minha filha, ela já estava cansada de me ver ir lá só pra comer e ir embora em seguida. Eu deveria chegar às 8, mas tenho muitos anos de praia, fiquei vendo Dois papas na Neflix e cheguei às 9.

Cheguei, vi e quase voltei. Marta estava de bermuda e camiseta, suada, choferando o fogão, com um brilho perigoso no olhar. Perguntei timidamente:

– A ceia não começava às 8?

– Tô atrasada, a comida não está pronta, ninguém me ajuda! – lastimou-se Marta, com alguma razão. Minha neta adolescente olhou muito interessada para as unhas e o celular, fingindo que não era com ela. Achei mais prudente sair da cozinha e juntar-me aos outros, cada um com sua latinha de cerveja, enchendo os cornos. Era pouca gente: o marido de minha filha, o pai de Leonor, uma amiga de Marta com quem simpatizo, e uma veia. Não sou nenhum jovenzinho, mas ela era um tipo ideal weberiano de VPC, veia pra cacete. E, pelo ritmo com que mamava sua latinha de cerveja, logo desabrocharia numa vpcbe, veia pra cacete bêbada esporrenta. Era demais para meu frágil corpinho, dei um tchau rápido para a turba, fui à cozinha e falei a Marta que voltaria lá pelas 10. Ela me olhou feio, mas concordou.

Moro a uns três quarteirões de minha filha e logo retomei os Dois papas. As 10 horas chegaram e se foram, mas tenho muitos anos de praia e só voltei chez Marta lá pelas 10h20.

A coisa havia melhorado um pouco. Marta continuava de bermudas e suada, mas visivelmente mais calma, pois a ceia estava quase pronta. Leonor havia chegado e estava sendo monopolizada por minha filha. As duas estavam às voltas com um peru que Leonor trouxera e que ocupava o forno. Sentei-me num canto estratégico e fiquei vendo a bancada da cerveja encher o caneco, enquanto bebericava minha Coca-Cola.

Lá pelas tantas, o pai da Leonor falou que a filha havia assinado a Netflix, que a seu ver não passava de um “instrumento do imperialismo ianque”.

Ora, eu havia interrompido Dois papas para ir naquela bosta de ceia. Subi nos tamancos e falei que discordava, que você encontrava praticamente tudo na Netflix, dos clássicos do cinema aos últimos lançamentos em filmes e séries. Louvei Dois papas, Orange is the New Black, Breaking Bad e por aí fui, com o freio nos dentes.

O marido de minha filha concordou comigo (ou falou que concordava, pra me puxar o saco). O pai da Leonor ficou meio desconcertado, pois esperava aplausos por sua profissão de fé anti-imperialista. A conversa, até então inexistente, se generalizou, explorando até a exaustão o tema séries de TV. E a veia continuou a encher os chifres de cerveja, em silêncio, dedicada a seu processo de embebedamento amplo, geral e irrestrito.

Lá pelas 11h40, depois de Marta ter tomado banho e posto uma roupícia de festa, perguntei quando ela pretendia abrir o vinho. Afinal, havia sobre a mesa duas garrafas de cabernet chileno, que pelo cheiro da brilhantina (deixei de ser conhecedor há mais de 20 anos) me pareciam de uma qualidade razoável.

Minha filha sorriu – o primeiro sorriso que me dirigiu naquela noite – e abriu uma garrafa. Coloquei um pouquinho no copo, provei e comentei:

– Não é mau.

Péssima escolha de palavras! C’est pas mal é o que se diz na França, quando se saboreia um vinho “honesto”, bom, mas sem pretensões a uma safra de primeira linha. Marta explodiu:

– Porra, pai! Pedi indicação ao sommelier da seção de importados sobre o melhor vinho chileno nessa faixa de preços, e você diz simplesmente que não é mau? – E engatou a lamúria habitual – O senhor nunca me dá força, nada do que faço está bom para o senhor…

Fiquei paradaço e me sentindo culpado sem haver motivo algum para isso; afinal, tudo o que ela fizera fora entrar na seção de vinhos importados do supermercado, consultar o soi disant especialista, pegar as duas garrafas e pagar. De repente me deu um arrepio de preocupação, enquanto pensava: “Se a comida da ceia não estiver maravilhosa, vai dar bosta…”.

E deu mesmo. Marta havia feito um de meus pratos favoritos, um belo camarão na moranga. Mas o peru ocupava o forno, e a moranga não podia ficar muito tempo no micro-ondas porque perigava derreter, então meu prato estava morno. Fui, mais uma vez timidamente, pedir a minha filha que o esquentasse. Ela me fulminou com os olhos, mas esquentou. Comi, c’était pas mal, mas não falei nada, havia aprendido a lição.

E então veio o peru, obra-prima de Leonor, com a participação especial de Marta e do forno do fogão. Estava uma delícia, o vinho tinto o acompanhava bem. A nobre missão de esvaziar a garrafa coube a Marta, Leonor e a mim, pois a bancada da cerveja já estava encornada demais para mudar de veneno. Eu já havia entornado quase meio litro de cabernet, quando cometi a imprudência de me dirigir a Leonor:

– Parabéns, moça, o peru está uma delícia!

Péssima escolha de interlocutora! Eu não havia elogiado o camarão na moranga, prato estrelado por Marta, e sim o peru de Leonor (no bom sentido da palavra), no qual minha filha fora coadjuvante. Eu havia cometido o crime de lesa-majestade do talento culinário de minha filhota.

Um dos últimos incidentes da ceia foi a troca de cumprimentos e de votos de Feliz Natal entre os participantes. Apertei as mãos de marido da Marta e do pai da Leonor, troquei beijinhos com Marta, Leonor e minha neta… e então a veia veio cambaleando na minha direção.

“Se essa desgraça tentar me beijar vai levar uma porrada”, pensei, mas o tribufu me estendeu a mão direita enquanto segurava forte com a esquerda sua enésima latinha de cerveja, quem sabe temerosa que eu a roubasse.

Finalmente, lá pela 1h15 da madrugada, me despedi de minha filha. Ela me beijou – e aproveitou para rosnar baixinho no meu ouvido:

– Gosta de peru, né, pai? Pois enfia ele onde o sol não bate!

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