Às vezes nos flagramos com uma dúvida silenciosa: e se eu estiver mudando demais?
A pergunta costuma vir acompanhada de culpa, como se transformação fosse sinônimo de excesso, como se amadurecer fosse trair versões anteriores de nós mesmas.
Mas há outra possibilidade menos dramática e mais verdadeira: e se estivermos, pela primeira vez, nos respeitando?
Durante muito tempo, fomos ensinadas a confundir adaptação com virtude. Ajustar o tom para não incomodar. Reduzir expectativas para não parecer exigente. Silenciar desconfortos para manter vínculos. Simone de Beauvoir já apontava que a socialização feminina frequentemente molda mulheres para a acomodação, não para a afirmação. Assim, quando finalmente colocamos limites, a sensação inicial não é de libertação é de estranhamento.
Respeitar-se altera relações. E isso assusta. Michel Foucault lembrava que as relações humanas são atravessadas por microestruturas de poder.
Quando alguém deixa de aceitar determinadas dinâmicas, o equilíbrio anterior se desfaz. A mudança não é apenas interna; ela reorganiza o entorno. Por isso, quem cresce costuma ouvir que “está diferente”. Está mesmo. E ainda bem.
Há uma diferença fundamental entre endurecer e fortalecer-se. Endurecer é fechar-se por medo. Fortalecer-se é aprender a escolher.
Respeito próprio não nasce da raiva, mas da consciência. É o momento em que paramos de negociar o que nos fere.
Talvez o incômodo não seja estar mudando demais. Talvez seja estar, finalmente, abandonando a versão que sobrevivia para começar a viver.
E isso não é excesso. É maturidade.
Mudança pode ser ruptura. Mas também pode ser reconciliação consigo mesma.
