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Não era uma ogra

Era uma vez uma bruxa. Não era uma ogra, uma pessoa totalmente má. Mais para uma Madame Min brazuca do que para uma Medeia de tragédia grega. Isso significa que, como todos os viventes, tinha luzes e sombras, lados bons e lados ruins. Claro que estes prevaleciam por larga margem: por isso era uma bruxa, não uma fada madrinha dos contos de fadas ou dos filmes da Disney. Se mentalizasse algo de bom para alguém, muitas vezes a coisa se concretizava; mas se desejasse algo de ruim, não dava outra. Era, vamos dizer assim, uma veínha boa de praga.

Entre seus lados luminosos estava o grande amor que sentia pela neta, que criava desde a morte dos pais da menina. Esta retribuía o sentimento. Quando alguém da aldeia chamava a avó de bruxa, a neta subia nos tamanquinhos e a defendia, feroz:

– Que maldade! Vovó não é bruxa. É uma benzedeira!

A bruxa/benzedeira (assim é, se lhe parece) tinha, como todas as mulheres dedicadas a esse mister, um animal de poder. Não um corvo, uma coruja ou um lobo, como é usual no Velho Mundo; era uma víbora de uns 2 metros, da família das jararacas, venenosa pra dedéu, conhecida no Brasil como jararacuçu ou urutu. Estar ligada a uma bruxa não a impedia, de caçar, geralmente à noite, pequenos roedores e aves. Mas sua participação em rituais arcanos, ao lado de uma bruxona cascuda, talvez a tornasse mais consciente das maldades deste mundo e da necessidade de armazenar forças para dar o troco, com toda a fúria. Era, assim, uma jararacuçu um tantinho mais assustada e mais raivosa do que suas irmãs rastejantes.

É sabido que as serpentes só investem quando se julgam ameaçadas. A da bruxona, porém, assustada o tempo todo, sentia-se permanentemente ameaçada e estava sempre enrodilhada para o combate. Enquanto as demais urutus dormitavam, preparando-se para a caçada noturna, a víbora da bruxa não relaxava. Bastava um ruído qualquer, um raio de sol refletido por uma garrafa de vidro esquecida na mata que ferisse seus olhos, para que ela se enroscasse e batesse com a ponta da cauda nas folhas secas ao redor, produzindo um ruído que lembrava o chocalho de uma cascavel. A mensagem era clara:

– Se chegar perto, vou atacar!

Mas havia um subtexto – não à toa, estava ligada a uma bruxa chegada a malvadezas, se não totalmente malvada:

– Chega mais perto, bobinho! Vou ficar quietinha, faço nada não, juro…rsrs.

Certo dia, uma menina penetrou na mata, em busca de ervas comestíveis, e se aproximou inadvertidamente da víbora. Bandeirante do reino das serpentes, sempre preparada, ela deu o bote, cravando as presas na perna da garota. Esta correu para a casa da avó (claro que era a neta da bruxona), pedindo socorro. A velha aplicou um emplastro de ervas no local do ferimento e improvisou um torniquete, para retardar a circulação do veneno. Mas nem esperou para ver se a netinha melhorava; cheia de fúria, embrenhou-se mata adentro, disposta a acabar com a vida de seu animal de poder.

O problema é que as duas, serpente e bruxa, estavam ligadas por uma série de rituais da pesada; era impossível prever qual seria o efeito, na humana, da morte do bicho. Mas ela, furiosa, ignorou as advertências de seus espíritos guias e investiu com uma pedra contra a jararacuçu.

Um golpe preciso matou a víbora instantaneamente. No mesmo momento, a velha caiu por terra, o crânio rachado, como se atingido por um objeto contundente.

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