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Não Morremos por Acaso

É difícil ser mulher e não falamos isso no sentido íntimo, biológico ou doméstico, como tantas vezes tentam reduzir. Não falamos apenas de hormônios, de menstruação, de dupla jornada, de cansaço acumulado. Falamos de viver. Porque, para nós, viver nunca foi um gesto neutro.

Nós morremos por sermos mulheres.

Morremos porque ousamos existir fora do lugar que nos foi designado.

Morremos porque queremos viver com liberdade, desejo, autonomia e voz.

Quando dizem que exageramos, quando tentam suavizar os números, quando transformam nossas mortes em estatística ou em narrativa moral, ignoram o essencial: nós não morremos por imprudência, nem por escolha errada, nem por ideologia. Nós morremos porque a liberdade feminina ainda é percebida como afronta.

Angela Diniz não morreu por amar demais morreu por não aceitar ser propriedade.

Tantas outras, com nomes conhecidos ou anônimos, não morreram por erro individual, morreram porque ser mulher, em muitos contextos, ainda é viver sob ameaça constante.

E não, não é o feminismo que mata.

O feminismo é resposta.

É tentativa de sobrevivência.

É nomeação do problema que insistem em esconder.

Nós não combinamos de morrer. Nunca foi esse o pacto.

Nós combinamos de viver.

De estudar, de amar, de trabalhar, de errar, de recomeçar.

Mas enquanto isso, há quem tenha feito outro acordo silencioso, estrutural, histórico o pacto de nos eliminar quando escapamos do controle.

Resistimos. Todos os dias.

Resistimos quando saímos de casa.

Quando voltamos sozinhas.

Quando dizemos não.

Quando escolhemos ir embora.

Quando escolhemos ficar.

Quando escolhemos ser.

Mas está difícil.

Difícil demais carregar o luto coletivo enquanto seguimos funcionando.

Difícil ter que explicar, o tempo todo, que não queremos privilégio, queremos continuar vivas.

Difícil transformar dor em luta sem que isso nos custe a própria saúde.

Ainda assim, seguimos.

Porque nossa existência já é um gesto político.

Porque cada mulher viva é uma interrupção nesse pacto de morte.

Porque enquanto estivermos aqui, falando, escrevendo, nomeando, lembrando, eles não vencem completamente.

Nós não pedimos licença para existir.

E não pedimos desculpas por querer viver.

Nós seguimos cansadas, sim.

Mas juntas.

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