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Não Somos Difíceis: Somos Lúcidas

Nós não somos difíceis de lidar. Somos difíceis de ser enganadas. Existe uma diferença ética entre complexidade e ingenuidade, e por muito tempo tentaram nos convencer de que questionar, observar e estabelecer limites era sinônimo de problema. Não é. É maturidade. É experiência acumulada. É leitura atenta do mundo e das pessoas.

Quando nos chamam de “difíceis”, quase sempre querem dizer que não aceitamos incoerências com facilidade. Que não compramos discursos prontos. Que prestamos atenção no intervalo entre o que é dito e o que é feito. Hannah Arendt já alertava que a banalidade do mal nasce justamente da ausência de pensamento. Nós pensamos. E pensar incomoda.

Nós aprendemos a ler os sinais. Aprendemos porque já pagamos caro pela confiança irrestrita, porque já confundimos intensidade com verdade, porque já acreditamos em promessas que não sobreviveram ao cotidiano. Não é desconfiança gratuita, é memória. Annie Ernaux escreve a partir dessa lucidez dolorosa: a de quem entende que a experiência deixa marcas, mas também produz clareza.

Ser difícil de enganar não é ser fria. É recusar a infantilização emocional. É não aceitar relações onde a transparência é negociável. Clarice Lispector dizia que a lucidez pode ser perigosa — e é. Porque ela nos tira do conforto das ilusões e nos coloca diante da verdade nua, sem maquiagem.

Nós não pedimos perfeição. Pedimos coerência. Pedimos responsabilidade afetiva. Pedimos que a palavra não seja um enfeite, mas um compromisso. Roland Barthes lembrava que o amor se revela menos no discurso e mais na constância dos gestos. Nós observamos os gestos.

Que isso fique como aprendizado coletivo:

Não nos chamem de difíceis quando o que está em jogo é honestidade. Não confundam nossa lucidez com rigidez. A vida continua quando aprendemos a não negociar o básico — verdade, respeito e presença. Nós não somos difíceis de lidar. Somos difíceis de manipular. E isso não é defeito; é conquista.

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