Se no poder há homens que não suportam mulheres, é porque, quando se é mulher, é preciso ser duas vezes. É preciso gestar ainda que não se queira parir. É preciso provar-se brilhante — brilhar não basta. Ao contrário de deus que, em sua invisibilidade, se materializa; a mulher, em sua materialidade, é, por vezes, invisibilizada.
Certa vez, entrando na Igreja de São Francisco de Assis, uma mulher me disse ter pena de Deus. Imagine o que ela não tinha, então, por si. Uma grande fé.
“A vida é uns deveres que trouxemos para fazer em casa”, mas me esqueci de fazê-los. Meus professores de matemática detestavam minhas provas, pois sempre fui dada às rasuras.
De forma não muito distante, também sou muito anárquica com a vida. O acúmulo do não-viver, todavia, vai transbordando aos poucos na repetição de dias em que ironicamente se vive. É que a dualidade existencial é mais fina do que pensávamos, e a conjuntura técnica do que agrada também se apresenta de forma complexa: a zona de conforto deveras desconfortável.
Pensando naquela história pela qual, por muito, não me perdoei, entendi que nascer mulher é nascer culpada e, arrastando os dias, me vi num beco sem saída: ou vivia a culpa ou vivia eu. Assim como os homens, não sou perfeita. Sou prolixa e procrastino, mas também jeitosa quando me interesso. Leio livros pela metade, não acredito que a preguiça seja pecado e, dia sim, dia não, acredito em sucesso sem esforço. Nem sempre escrevo como deveria e, por vezes, o impulso me faz rabiscar tudo. O que me salva é permanecer escrevendo, e o contrário não poderia ser.
Lembro-me com perfeição do sentimento, tão semelhante ao de agora, que senti há muito tempo. Voltava duma viagem de trabalho a Curitiba, tinha então meus 18 anos. Nada além de uma piscadela mudara tudo. Algo se apagava dentro e tive a impressão de que nascia ou morria algo — sentimento extremamente ambivalente.
Às cinco da manhã daquele dia, escrevi – sempre acordei assustada às cinco da manhã –, e acordei em mim numa madrugada tão escura que tinha medo de continuar o caminho. Mas continuava.
Essa sensação me reapareceu aos 22 numa noite extremamente fria. Escrevi um conto sobre algo que nunca vivi. Todavia, me rotularam e me cuspiram por uma vida inventada. Mas um homem, ah, como são potentes artistas ou qualquer-nome. O mais medíocre de todos se sente uma potência, e lhes enchemos de saliva, e de aplausos, e de flores, e de honras.
Secando, nesse deserto árido de pensamentos atravessados, está nosso corpo à espera duma chuva prateada de ódio.
O fastio me vem numa terceira onda agora. A absurdez da vida me põe em pausa. Profundo cansaço. Não queria lutar. Não queria ter de dizer o óbvio. Não queria empregar meus braços cansados a levantar bandeiras numa rua em que meus gritos sejam engarrafados, transfigurados e vendidos. Não mais espero por nada, levanto e ando, ainda que cansada, ainda que não queira.
Há alguns dias, uma mulher me disse que as pessoas me escolhem pela minha verdade; mas também é por ela que os homens se vão. Assassinar minha autenticidade em prol de um mundo de homens é requisito para um suicídio ao qual não estou disposta. É obrigação me insurgir contra o que me violenta e, na dualidade culpa-mulher, sempre me escolher.
Ser medíocre é coisa pra macho. Mulher é pra ser revolucionária. Eu (me) sou.
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Cris Guedes é poeta, advogada e revisora, mestre em Direito pela UNB e mestranda em literatura.
