Natália Não Atrapalha está de aniversário. No grupo social que frequenta, os participantes irão cumprimentá-la, já que ela levará um bolo, conforme é exigido pela dirigente.
Seu primeiro nome foi dado pela madrinha, mas o sobrenome foi substituído pelo refrão que ouviu durante a vida inteira e cuja atribuição se perdera na memória:
‒ Natália, Não Atrapalha!
Na escola, a menina desengonçada de olhos verdes e cabelos loiros aprendeu a não fazer perguntas para não tirar a vez dos colegas.
Na adolescência Natália ficou alta, nem magra e nem gorda. Percebeu que não devia tomar iniciativas com os meninos para não tirar a vez das irmãs e das amigas que poderiam se interessar por eles. Natália não atrapalha era pessoa contida. Nunca se achou bonita. Os outros ignoravam o item beleza/feiura quando a olhavam. Era esbelta e até sensual na juventude. Um corpo para ninguém botar defeito. Mas suas roupas encobriam as curvas de seu corpo.
O primeiro emprego foi arranjado em família. Num pequeno refeitório, executava seu trabalho que era interrompido para servir o almoço para os demais. Foi a partir de então que aprendeu a só tirar férias quando fosse conveniente exclusivamente para o patrão. Geralmente férias coletivas…
Casou-se cedo com um vizinho que ficara viúvo no nascimento da primeira filha. Tudo começou quando mandaram Natália transportar leite materno de uma funcionária de seu emprego para a casa do viúvo. Assim que chegava, o rapaz pedia que ela mesma desse a mamadeira. Com a repetição de tal ato, isso aproximou o bebê olfativamente da moça.
Por amor à filha, o viúvo pediu Natália Não Atrapalha em casamento, assim que findou o prazo do luto fechado, segundo o costume local.
Evitaram ter filhos até a criança entrar na escola. Depois disso, o marido levou a mulher para cobrir as férias de seus funcionários na empresa dele, que já prosperava.
Não frequenta igrejas porque isso toma muito tempo das pessoas. Lê quando sobra um tempinho, nos livros que o marido e a enteada abandonam nalgum canto da casa. Vai ao cinema só quando o marido escolhe o filme e a convida. E o mesmo se dá em relação aos programas de TV. Natália não atrapalha era uma mulher fiel.
O tempo passou, as irmãs dela se casaram, se divorciaram, se recasaram, enviuvaram. O pai faleceu, o padrinho, os tios. E depois as tias, a madrinha, a mãe. Nas partilhas dos legados de cada um sempre ouvira que “um pouco com Deus é muito!”.
Natália Não Atrapalha irá completar oitenta anos. Ainda não reivindicou seus direitos individuais…
E os coletivos? Nunca ouviu falar!
