Gerson, cuja timidez goiana o acompanhou quando se mudou da cidade natal, Caldas Novas, para Brasília, passava as manhãs solitárias nas piscinas gélidas da Água Mineral, tão discrepantes das que estava acostumado.
As braçadas aceleravam o coração, enquanto a mente divagava sobre possibilidades tão improváveis, às quais Gerson se agarrava como se, sem elas, talvez o dia se tornasse insuportavelmente longo. Pedia um pastel, pedia outro, trocava palavras miseráveis, tentativas desastrosas de fazer amizade. A dona da lanchonete tinha lá suas preocupações.
Tomava banho no chuveiro de temperatura quebrada, aprumava-se para ir trabalhar na repartição pública. Cargo disputado, vencido por horas de estudo e sorte, chutes certeiros em questões que não fazia a menor ideia do que era. Deus estava com Gerson. Por que Deus havia soltado a mão dos outros? Que cada um aprenda a conviver com suas falhas. O sujeito já carregava a cruz da invisibilidade.
Conheceu Clarice. Não por acaso. Talvez tenha sido mesmo por acaso, já que Gerson, diante da falta de abertura no mundo real, criou perfil no virtual. Simpático e não bonito, confiável e não aventureiro, simplicidade dos olhos castanhos e não azuis, cabelos… Bem, os cabelos quase sempre aparados, como as arestas da própria existência.
O primeiro encontro aconteceu num café, mas poderia ter ocorrido em qualquer outro lugar, tamanha a indiferença de olhares. Mais o dela, enquanto os de Gerson pareciam desacreditados diante da figura quase real da mulher. Bela? Muito além do que ele esperava, tamanha modéstia do perfil de Clarice, talvez descrente de encontrar um príncipe encantado. Mas aquilo? Até ela, do alto da humildade de uma entre tantas, se sentiu avessa à possibilidade de um segundo. Que ficassem no virtual. Amizade e nada além.
Feriados prolongados, Gerson costumava visitar a família. Queria o litoral, mas a mãe insistia, a avó resistia, talvez não a visse no Natal.
— Como estão as coisas na capital?
— Bem, mamãe, tudo bem.
— E a namorada?
— Vai bem, mamãe.
— Clarice, né?
— É, mamãe.
— Moça de sorte.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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