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Nem todas as mulheres me agradam, mas todas merecem ser livres

Existe uma expectativa silenciosa imposta às mulheres: devemos gostar umas das outras. Como se o simples fato de compartilharmos uma condição social fosse suficiente para produzir afinidade automática. Não é assim que a vida funciona.

A verdade é simples e, ao mesmo tempo, pouco admitida: há mulheres de quem eu não gosto. Mulheres com quem não compartilho valores, visões políticas ou modos de vida. Mulheres que prefiro manter à distância. E isso não deveria ser escândalo algum.

O equívoco surge quando se confunde afinidade pessoal com compromisso político.

A luta feminista nunca exigiu que mulheres fossem iguais ou que se tornassem amigas. O que ela exige é algo muito mais profundo: o reconhecimento de que nenhuma mulher deve ter sua liberdade negada. Mesmo aquelas com quem discordamos. Mesmo aquelas de quem preferimos nos afastar.

A filósofa Simone de Beauvoir escreveu que a opressão feminina se sustenta justamente na fragmentação entre as próprias mulheres. Quando não conseguimos nos perceber como grupo político, o patriarcado permanece intacto. Ele se beneficia da nossa divisão.

Mas reconhecer essa dimensão coletiva não significa negar diferenças reais. Mulheres pensam diferente, vivem de formas distintas, ocupam posições sociais diversas. Algumas reproduzem estruturas conservadoras; outras lutam para transformá-las. O campo feminino não é homogêneo.

A maturidade política talvez esteja exatamente nesse ponto: compreender que a defesa da liberdade feminina não depende de simpatia pessoal.

Eu posso não querer sua amizade. Posso não concordar com suas escolhas. Posso inclusive preferir o silêncio e a distância. Mas nunca desejarei que você seja menos livre.

Num mundo onde mulheres ainda são assassinadas por parceiros, silenciadas em ambientes profissionais e julgadas por suas escolhas, defender a liberdade feminina não pode ser um gesto seletivo.

O feminismo não é um clube de afinidades. É um compromisso ético com a possibilidade de que todas as mulheres vivam sem medo.

Mesmo aquelas que não cabem no nosso círculo de afetos.

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