Só
Carrego a cruz nos ombros
Divido partes iguais
Cada um com um pedaço
Uma parte para os pais
Outra parte, os amigos
Fração ideal para o cônjuge
O mínimo existencial para os adversários
Tem dia que é alegria.
Há outros, que são queda.
Em todos, martelo o prego ao final.
Rezo, choro, em prantos fico.
Tanta falta faz um amigo
Do peito, um coração a sangrar.
Junto da cruz, espinhos perfuram.
A visão turva e os caminhos incertos.
Há vielas inseguras.
O calvário parece um grande obstáculo.
Frequentemente procuro escutar a voz.
Há muito silêncio aqui.
O frio me consome.
Suas silhuetas somem.
Onde estão vocês, que agora me negam?
Escorre o líquido da ferida.
Cor vibrante, nos meus pés, como vinho.
Neste sacrifício, sofro sozinho.
As vozes se calam no templo vazio,
Ecoam memórias num canto tardio,
O peso do mundo desaba em meu dorso,
E o tempo me arrasta, cruel, no seu curso.
Se tudo me falta, ainda me resta o pó,
Testemunha muda do que fui e estou só,
Mas mesmo na queda, no escuro e sem dó,
Há algo que pulsa e não se desfaz em nó.
……………
Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.
