No sobrado antigo da rua que ninguém nomeia, onde o asfalto ainda guarda marcas de tamancos velhos, eles se reúnem sem hora marcada, como se o relógio tivesse vergonha de interromper.
Eduardo Martínez chega primeiro, com o olhar de quem caçou rock em berimbau esquecido, traz no bolso uma crônica que ainda sangra tinta fresca, e diz baixinho: “A vida é um arco sem flecha, mas a gente atira mesmo assim”.
Rodrigo Sorato entra em seguida, sem poesia no título, mas com verso no peito partido, senta na cadeira que range como saudade antiga e murmura: “Minha alegria já foi verso, agora é só prosa que se joga de abismos quietos”.
Rafaela Fernandes aparece com o vento nos cabelos, leve como quem não carrega malas, só lembranças, e sorri para Eva Maria Oliveira, que já está ali, tecendo silêncios de mãe-velha, com mãos que conhecem tanto o tear quanto o terço.
“Eva, me conta de novo aquela história da pérola na lama”, pede Rafaela,
e Eva responde com os olhos úmidos:
“A pérola nasce da dor que a ostra não explica”.
José Aristides chega tossindo fumaça de cachimbo imaginário, com a barba branca de filósofo de esquina, e solta: “O mundo é uma grande aristocracia de tolos, mas a gente resiste com aristocracia de afeto”.
Cadu Matos surge rindo, como se a vida fosse um improviso de samba que deu certo, e puxa Mércia Souza pela mão:
“Vem, Mércia, conta do mar que você carrega dentro do peito”.
Mércia, com voz de concha que guarda o barulho de Cachoeiro,
responde: “Eu escrevo para não afogar as ideias,
para que o coração não vire lama sem pérola”.
J. Emiliano entra discreto, quase sombra, mas quando fala, a sala se cala: suas palavras são navalhas suaves, cortam sem ferir, costuram com linha invisível o que a pressa rasgou.
Saulo Braga chegou apressado com uma poesia que tirou lágrimas até das pedras da rua que tudo ouvia.
Neste curto intervalo para secar as lágrimas, entra Gilberto Motta de braços dados com a brilhante Simone Magalhães, falavam do tempo e da pressa que acelera tudo.
Então surge João Pedro, o Visconde de Sabugosa, do nosso clube de leitura, com a postura de quem herdou título e biblioteca inteira,
mas prefere o título de ouvinte atento. Ele não chega anunciando brasões; chega com um livro antigo debaixo do braço, um volume de crônicas que cheira a papel de outra era, e diz com voz grave e doce: “Senhores, a nobreza verdadeira está na página que a gente vira juntos.
O resto é só sabugo dourado ao sol”.
E por fim, Dona Irene, a que chega sempre por último porque o tempo a espera, com xale de crochê e sabedoria que não cabe em livro. Ela não diz muito, só olha cada um como quem abençoa, e sussurra: “Filhos, a poesia não está no papel. Está no jeito que a gente se olha quando o mundo quer nos apagar”.
Então o sobrado respira. As cadeiras rangem juntas, as xícaras tilintam como sinos tortos, e por um instante não há mais nomes separados
há apenas um grande poema vivo, feito de risos, cicatrizes, silêncios compartilhados e um visconde que lê sem coroa.
Lá fora, São Paulo buzina sua pressa, mas ali dentro, o tempo para de correr.
Eles continuam, porque enquanto houver uma voz que responda “presente”, a roda não se desfaz.
E assim, no coração desse sobrado de almas, permanece Luzia Couto, a eterna romântica sem rimas, que ama em versos livres, guarda as pétalas da saudade no bolso e sorri quieta, sabendo que o amor, mesmo sem métrica, ainda é o que faz o círculo girar.
