Preocupado com a possibilidade de ter sido infectado pela duplicidade de personalidade, a síndrome da moda, aproveito todo tipo de folga para me avistar com um daqueles profissionais que sempre preferi tê-lo a distância. Mesmo tendo vivido a época da análise, nunca me sentei em colos bilaterais, touceiras canaviais, tampouco em divãs naturistas, sensitivos e paranormais. Mesmo com alguma reserva, normalmente procuro o terapeuta. No sommier da verdade, antes que o doutor pergunte a razão de minha presença, digo que estou ali porque há tempos desconfiava de estar sendo incomodado por uma segunda personalidade.
Como? Às vezes, de dia sou santo e torço pela ressurreição de Jair Messias em outra galáxia, às vezes sou o Satanás de rabo e peço a Deus para mandar o mito para os quintos de São Januário, onde, ao lado do espírito do correligionário Eurico Miranda, teria de pagar por todo o sofrimento dos irmãos vascaínos. E olha que não é um sofrimentozinho qualquer. Alguns segundos de reflexão e o indigitado médico sapecou: “Muito bem. Aproxime-se, sente-se mais perto de mim e vamos conversar os quatro”. Confesso que, após o susto da demasiada aproximação, me reconfortei diante da resposta. Não estou só, pensei em voz alta.
Decidido a somente entrar na efetiva dúvida depois de me assegurar da confiança que o moço do jaleco cor de rosa tentava passar, insisti na veracidade da doença de Bolsonaro. Bobagem, porque jamais duvidei de sua estultice em último grau. Mesmo assim, procurei saber se o médico dispunha de pelo menos uma razão para justificar a hospedagem luxuosa destinada ao tenente. Justamente ele que um dia imaginou impor a generais cultos (alguns nem tanto) um golpe de Estado sabidamente sem respaldo das principais potências do planeta, principalmente os Estados Unidos, país com o qual o insubordinado militar não tinha à época sequer tratado para comer pizzas sentado à mesa. Podia comer o que quisesse, desde que nas calçadas.
Mais uma vez a resposta foi convergente com meus pensamentos de masturbador ideologicamente amador: “Embora antigo no métier, foi – e é – petiz e basbaque em política nacional. A mente é como um paraquedas, só funciona se estiver aberta. A dele nunca esteve”. Tomei um susto porque, num primeiro momento, cheguei a achar que a resposta fosse para mim. Pedindo licença à Madre Baby do Brasil, fui direto ao assunto: Doutor, Zé Simão disse que masturbação evita câncer de próstata. Posso recuperar meu estoque de “Playboys” e meter a mão na massa, isto é, na cobra? Com uma tranquilidade de fazer inveja a Chico Xavier, o terapeuta respondeu afirmativamente, mas com algumas ressalvas.
– Meu caro manuseador de sabugo, sou leigo no assunto episcopal, mas se o senhor busca a imortalidade, devo informá-lo que, melhor do que lavar o biscoito em velocidade extremada, é a dedada do colega entendido em girassol pelo menos três vezes por ano. Posso afirmar que, mais do que isso, pode ser considerado pela vizinhança como sodomia ou, se preferir, depravação. Obviamente que a longa decifração de minha simplória indagação não me satisfez. Preocupado com novos sermões, paguei a consulta e deixei o recinto com as mesmas dúvidas da entrada. Pelo sim, pelo não, não me tranco mais em vão no banheiro.
Primo alfa de Nero, o deus da exabundância e da fogosidade, Zé Simão é um escriba sério, respeitoso e, portanto, merecedor de todas as loas. Por isso, sou mais ele do que o analista. Tudo bem que não haja afinidade entre a masturbação e a próstata. Todavia, não duvido de que a pizza seja mesmo um santo remédio para o câncer de estômago e que a cerveja faz bem aos ossos. Se verdadeiras as teses de São Simão, vou reconsiderar as Playboys, comprar um sofá novo, encomendar uma pizza gigante, encher o freezer de suco de cevada e cancelar a matrícula da academia. Já imaginaram o que vou fazer? Pois imaginem que, em duas semanas, estarei bem próximo da imortalidade. Só lamento a primeira sentada no divã.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
