A vida necessita de pausas.
Com olhos de hóspede do meu próprio ser, permito-me, à luz da minha essência humana – indetectável aos algoritmos – e após um longo e extenuante dia de trabalho, o necessário distanciamento de todos os arranjos neoliberais que se limitam a reduzir o meu precioso e exíguo tempo de vida terrena a uma simples commodity.
Somente quando me doutrino a desligar o “modo de sobrevivência” e encerrar os processos de aceleração do capital financeiro em meus batimentos cardíacos, cujos alicerces são os números de desempenho, produção e consumo, é quando, sem dúvida, me torno capaz de ouvir as mais belas narrativas da vida e, no mesmo compasso, refinar minha audição para acolher as necessidades alheias.
Aliás, em um “mundo em que somente se produz e quase ninguém mais escuta” (HAN, 2025, p.26), busco lançar-me na imanência do silêncio da minha consciência, da inatividade da minha alma, da contemplação da natureza e da construção de vínculos reais para com os meus pares e não apenas relações construídas nas redes sociais como meros objetos consumíveis.
Certo é que somente o silêncio me permite ouvir algo inaudito (HAN, 2025, p.38). A obrigação de, incessantemente, ter que me comunicar, de replicar o que todos fazem ou de ser mais produtiva, compromete tanto o meu potencial criativo quanto a possibilidade de tatear, sem fins ou regras pré-estabelecidas, caminhos, até então, desconhecidos na estrada da vida.
O repouso contemplativo me possibilita mergulhar nas camadas mais profundas do meu ser, encerrando aquele tempo pertencente à ordem de trabalho e de produção.
A aceleração da vida pelo sistema capitalista, por outro lado, além de aniquilar o tempo que damos ao outro, destruindo o sentimento de comunidade (HAN, 2025, p.93), visa, de igual modo, impedir o surgimento de qualquer forma de tédio ou ócio que busque trazer intensidade e beleza à vida e garantir o nosso pensar de forma livre. Prova disso é que, infelizmente, a maioria se limita a “matar” o tempo livre com barulhos e ruídos das mídias sociais, do “maratonar” séries, do “zapear”, do participar de eventos e espetáculos, e de transformar seu sono em um mero meio de regeneração da sua própria força de trabalho.
A pouca tinta, Millôr Fernandes estava certo ao afirmar que “quem mata o tempo não é um assassino. É um suicida”.
Sugestão de leitura: HAN, Byung-Chul. Vita contemplativa: ou sobre a inatividade. RJ: Vozes, 4 ed, 2025.
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Sandra J. M. Villaverde (@profsandra.villaverde) é professora universitária e advogada criminalista no Rio de Janeiro – RJ.
