Tem gente que ama de um jeito quieto, quase secreto. Não é o amor dos filmes, com declarações gritadas no aeroporto ou músicas tocando ao fundo. É um amor que mora nos detalhes: no jeito como guarda o copo favorito da pessoa na prateleira de cima, na mensagem de bom dia que nunca manda, mas escreve e apaga, no suspiro disfarçado quando o nome aparece na tela do celular.
Mariana era assim. Amava o Lucas desde os tempos da faculdade, quando dividiam a mesma mesa na biblioteca e ele emprestava o marca-texto amarelo sem que ela pedisse. O amor cresceu devagar, como planta que ninguém rega, mas insiste em viver. Virou namoro, virou planos, virou “um dia a gente casa”. Mas a vida, essa senhora imprevisível, tem o hábito de mudar os roteiros.
Lucas recebeu uma proposta de trabalho no exterior. Não era qualquer proposta: era o sonho dele desde menino, o cargo que ele desenhava em guardanapos de bar enquanto contava histórias de viajar o mundo. Aceitar significava três anos em outro continente, talvez mais. Recusar significava carregar um arrependimento que corroeria tudo.
Mariana ouviu a notícia em silêncio, como quem escuta uma sentença. Não chorou na hora. Só perguntou:
— E a gente?
Lucas baixou os olhos. A resposta já estava no ar, pesada como mala pronta.
Eles conversaram durante semanas. Tentaram soluções: namoro à distância, visitas a cada três meses, promessas de futuro. Mas os dois sabiam a verdade que não queriam dizer em voz alta. O amor deles era feito de presença — de dividir o edredom no inverno, de brigar por causa do controle remoto, de fazer café da manhã nos domingos preguiçosos. Distância não mataria o amor, mas o transformaria em outra coisa. Em saudade constante. Em espera. Em fantasma.
Uma noite, sentados no banco da praça onde se beijaram pela primeira vez, Mariana tomou a decisão que Lucas não conseguia tomar.
—Vai, amor. Vai viver isso. Eu te libero.
As palavras saíram firmes, mas dentro dela algo se partiu com um estalo seco. Lucas tentou protestar, mas ela colocou o dedo nos lábios dele.
—Se você ficar por mim, um dia vai me culpar. E eu não aguento carregar essa culpa. Prefiro carregar a saudade.
Eles se abraçaram por muito tempo. Choraram baixo, como quem não quer acordar o mundo. No dia da partida, Mariana não foi ao aeroporto. Disse que era melhor assim. Ficou em casa, abriu a janela e deixou o vento levar o cheiro dele que ainda estava nas cortinas.
Meses depois, as pessoas perguntavam se ela estava bem. Mariana sorria e dizia que sim. Arrumou o cabelo, voltou a sair com as amigas, adotou um gato que dorme no travesseiro que era do Lucas. Mas às vezes, no silêncio da madrugada, ela pega o celular antigo, abre as fotos e deixa uma lágrima cair sem barulho.
Porque tem amores que a gente não supera. A gente aprende a viver com eles, como quem aprende a andar com uma perna quebrada que nunca soldou direito. Dói menos com o tempo, mas nunca deixa de doer.
Mariana sabe que fez a coisa certa. Sabe que o amor, o de verdade, às vezes é soltar. É querer o bem do outro mesmo que esse bem não inclua a gente. É abrir mão não porque o sentimento acabou, mas porque ele era grande demais para caber numa vida menor.
E em algum lugar do mundo, Lucas olha para o céu estrangeiro e pensa nela. Carrega no bolso uma pedrinha que ela deu de presente numa viagem boba ao interior. Não voltou ainda. Talvez volte um dia. Talvez não.
Mas o amor continua ali, inteiro. Só mudou de forma. Virou respeito. Virou gratidão. Virou a certeza de que, em algum momento da vida, eles foram inteiramente de alguém.
E isso, no fim das contas, já valeu a pena. Mesmo que tenha doído pra sempre.
