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O amor que não vem para salvar

Nós crescemos ouvindo que o amor chega para completar, corrigir, curar. Como se fôssemos sempre um rascunho de gente, esperando alguém nos finalizar. Mas o tempo ensina outra coisa.

Ensina que tudo aquilo que vem para salvar também vem para mandar. Que toda promessa de preenchimento carrega, escondida, uma exigência de vazio permanente.

Nós aprendemos, muitas vezes à força, que o amor que vale não nasce da falta, mas da inteireza. Heidegger diria que somos ser-no-mundo, lançadas no tempo, responsáveis por existir sem garantias. E talvez seja exatamente aí que erramos por tanto tempo: ao esperar que alguém nos livrasse do peso de existir.

Nós confundimos encontro com anestesia. Confundimos afeto com fuga. Confundimos companhia com sentido. E então, quando o amor não vem, pensamos que falhamos. Que há algo errado conosco. Que somos exigentes demais, inteiras demais, conscientes demais. Mas talvez seja o contrário.

Talvez o amor não chegue porque nós já não aceitamos relações que servem para tampar buracos. Nós não queremos alguém para completar o vazio, porque aprendemos, às vezes entre ruínas, que o vazio também é um lugar de escuta, criação e lucidez.

Clarice Lispector escreveu que a solidão pode ser um luxo. Nós sabemos. Sabemos porque já estivemos acompanhadas e profundamente sós. Sabemos porque já fomos amadas de palavras e traídas de gestos. Sabemos porque já tentaram nos convencer de que amor dói, quando na verdade o que dói é a desigualdade.

Se um dia o amor chegar, nós sabemos: não será para nos salvar, não será para nos ocupar, não será para nos diminuir.

Será alguém que caminhe ao lado, sem nos pedir silêncio, sem nos pedir menos, sem nos pedir medo. Alguém que entenda que amar não é invadir, é reconhecer.

E se não chegar, tudo bem também. Porque nós não somos incompletas. Somos tempo em movimento. Somos presença. Somos mulheres que aprenderam que estar só não é fracasso, é escolha.

O amor pode acontecer, sim. Mas apenas se souber chegar sem promessas de salvação. Porque nós já sobrevivemos.

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