Quando Carlos Francisco tinha quatro anos, seu avô, que se julgava um gênio em psicologia infantil, inventou que tinha outro neto, Francisco Carlos. Os dois meninos eram tão diferentes quanto a água do vinho. Francisco Carlos tomava banho todos os dias, dizia sempre “por favor” e “obrigado”, comia toda a comida posta do prato, sabia manejar garfo e faca, mijava com a tampa do vaso levantada, enfim, era a criança perfeita. A ideia era oferecer um modelo para o neto, mas não funcionou: Carlos Francisco, o imperfeito, morria de ódio daquele filho de uma égua.
– Vou cobrir esse corno de porrada! – falava sempre. Quer dizer, não falava, porque seu dialeto ainda não fora enriquecido com palavrões. Mas falava o equivalente:
– Vou dar um pontapé no bumbum desse garoto chato!
Lá pelos seis anos, ao final de dois anos de tortura, Carlos Francisco constatou que: a) sua mãe era filha única; b) ele era o único filho homem (havia uma irmãzinha que não entra na história); c) o bobão do Francisco Carlos não era seu irmão e não podia ser seu primo, não mesmo, de jeito nenhum. A partir daí, o ciúme, a inveja e a ansiedade diminuíram. Mas, de vez em quando, lembrava daquele nome odiado, Francisco Carlos.
O tempo passou, Carlos Francisco, Chico para os amigos, estava com 72 anos, aposentado. Tinha uma turma relativamente grande, de idosos, idosas e quase idosas, com quem saía, bebia e, por vezes, se enroscava (com elas, era hétero). Certa noite, estava sozinho em seu apartamento, quando soou a campainha. Abriu e viu-se – ou melhor, viu um upgrade de si mesmo. O homem tinha suas feições e seu porte, mas estava em muito melhor forma. Traços menos castigados pelo tempo e. em vez de barriga de cerveja e vinho, tinha quase uma barriga de tanquinho. E os cabelos! Ostentava uma vasta cabeleira grisalha, enquanto Chico havia ficado careca.
– Olá, priminho – disse o eu com upgrade, dando um sorriso malicioso. Chico soube no ato quem era.
– Francisco Carlos! – arquejou.
– Em carne e osso. Por obra e graça de seu avô, meu criador.
O neto número dois – o corno filho de uma égua, no pensamento de Chico – contou que surgira devido às brincadeiras do avô, quando Chico estava com quatro anos, mas havia esperado, sem pressa, para se manifestar.
– Na verdade, esperei até você alcançar seus objetivos de vida ou desistir deles, mão queria inadvertidamente atrapalhá-lo – explicou o coisa ruim. – Mas agora você está velho, aposentado, só encontra alguns amigos… vou junto, priminho!
– Nunca que vou lhe apresentar minha turma!
– Não precisa, me materializo onde você estiver… – e sumiu da sala, para reaparecer segundos depois, na porta do quarto. – Quero ver você explicar que não existo de verdade, que sou fruto da imaginação de vozinho… – e desapareceu, deixando Chico às voltas com os velhos sentimentos de ciúme, inveja e ansiedade.
Na noite seguinte, quando Chico saía para festejar o aniversário de uma amiga, o primo filho da puta se materializou, todo pimpão, no elevador. Carrancudo, Chico foi com ele até o bar onde a turma se reuniria.
– Este é meu primo, Francisco Carlos – apresentou.
E aí veio nova mortificação: os amigos a-do-ra-ram Francisco Carlos, chamavam-no pelo nome duplo – nada de Chico, ou Carlinhos, ou Carlão – elogiavam sua cabeleira, sua aparência (“também tem 72 anos? Parece ter 10 anos a menos que o Chico”). As amigas, em especial aquelas com que pretendia seriamente se enroscar, se abriam que nem paraquedas para o recém-chegado.
“São umas traidoras”, pensava Chico, amargurado. Seu único consolo foi que o coiso não levou nenhuma delas para a cama., embora estivessem prontinhas, de mala e cuia. “É como se ele só existisse junto a mim”, percebeu. Mas era bem real a dor do abandono dos amigos, atraídos por um valor mais alto, que se alevantava.
Desse modo, Chico tornou-se coadjuvante na história dos priminhos. Coadjuvante indispensável, o polo que materializava o coisa ruim, que jamais o largava; mas ator secundário. Quando um amigo, ou uma amiga traidora, convidava o recém-chegado para um programa a dois, Francisco Carlos habilmente se esquivava. E Chico vendo tudo aquilo, sofrendo em silêncio, até que um dia não aguentou mais.
Carlos Francisco arranjou uma pistola carregada e aguardou a visita do indesejado. Quando Francisco Carlos se materializou, disparou contra a cabeça dele. Este desapareceu por um instante, para se corporificar logo em seguida.
– Que bobagem, priminho – disse, zombeteiro. – A essa altura, você já devia ter percebido que estamos liga…
Sem deixar que ele terminasse a frase, Carlos Francisco disparou contra a própria cabeça. Antes de morrer, viu Francisco Carlos se desmaterializar, dessa vez lenta e irreversivelmente, com uma expressão de terror nas feições bem conservadas.
