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O Brasil é de todos os deuses e a Leopoldina é um mar de fiéis

Falar de intolerância religiosa é falar de uma ferida aberta na nossa sociedade. Quando alguém é atacado, silenciado ou desrespeitado por causa da sua fé, não é só um direito individual que é violado, é toda uma comunidade que sofre junto. A liberdade de crença é um direito básico, garantido pela nossa Constituição e por acordos internacionais que o Brasil é signatário, mas que, na prática, ainda precisa ser defendido todos os dias.

Historicamente ligadas às camadas populares e às tradições afrodescendentes, as escolas de samba carregam a memória da resistência de povos marginalizados, em especial da população negra e das religiões de matriz africana. Por meio de seus desfiles, enredos, seus sambas de enredo e da vivência cotidiana em suas quadras, essas instituições constroem narrativas que valorizam a diversidade cultural e religiosa do país. Sendo um exemplo de harmonia entre as diversas crenças.

Em 2010, a escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense apresentou o enredo “Brasil de Todos os Deuses”, do saudoso carnavalesco Max Lopes. A escola exaltou, de forma poética e contundente, a diversidade religiosa brasileira. Dos cultos dos povos indígenas e africanos às tradições cristãs, judaicas, budistas e islâmicas, propondo uma mensagem de convivência pacífica e respeito mútuo entre todas as crenças.

Num país marcado por episódios recorrentes de intolerância religiosa, sobretudo contra as religiões de matriz africana, a escolha do enredo foi também um gesto político e pedagógico da agremiação da Zona da Leopoldina. As escolas de samba ensinam pelo exemplo. São espaços onde pessoas de diferentes crenças convivem, se divertem, trabalham juntas e se respeitam. Ali, a fé não exclui, pelo contrário, acolhe. É a laicidade vivida no cotidiano, no ritmo dos tambores, nos versos dos sambas e na ancestralidade dos que lutaram e lutam por um Brasil verdadeiramente plural. É exemplo de respeito e tolerância para o mundo. Para além da folia, o samba educa, une e resiste.

Quando a Imperatriz cantou que “a Leopoldina é um mar de fiéis”, não estava falando só de Carnaval. Ela traduziu o cotidiano religioso da região da Leopoldina, um dos territórios mais diversos e simbólicos da cidade do Rio de Janeiro.

Sob as bênçãos de Nossa Senhora da Penha, a região resiste em meio a terreiros, igrejas católicas e evangélicas, centros espíritas e inúmeras outras crenças. Um verdadeiro mosaico de fé popular, resistente, vibrante e, muitas vezes, alvo de intolerância, preconceito e violência.

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil/RJ – Subseção Leopoldina entende que essa diversidade é um patrimônio imaterial da região. Assim, segue na missão de garantir que nenhuma fé seja marginalizada, violada ou silenciada.

O Carnaval ensina o que a Constituição diz: não há hierarquia entre as fés. Não há religião superior, nem fé legítima que possa ser imposta. Há sim, um “povo romeiro, valente e festeiro”, que caminha com esperança num amanhã melhor.

A Leopoldina é, sim, um mar de fiéis, mas também é um mar de resistência, de cultura, de ancestralidade e de luta. E a OAB, por meio de sua subseção Leopoldina, se faz presente nesse mar, não como barco à deriva, mas como farol de justiça, igualdade e proteção à diversidade.

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Tadeu Goes é advogado, historiador, poeta,  artista plástico e presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB/RJ – Subseção Leopoldina.

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