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O Brasil que finge que acorda

Todo dia o noticiário abre com o mesmo roteiro: sirene, viatura, corpo no asfalto, mãe gritando nome de filho. Crime e violência lideram as pesquisas de preocupação 41%, 45%, números que sobem e descem como febre, mas nunca baixam de verdade. Enquanto isso, o político no palanque promete “mão firme”, “tolerância zero”, “guerra ao crime”.

Palavras fortes, gestos duros, mas na prática o que vemos é o mesmo: favela sitiada, periferia sangrando, elite blindada.

E a corrupção? Caiu um pouquinho no ranking das angústias nacionais, dizem as sondagens. Agora aparece em terceiro ou quarto lugar, atrás da saúde e empatada com a pobreza. Como se o desvio de bilhões fosse menos grave porque “já estamos acostumados”. Acostumados. Essa é a palavra que mata mais devagar que bala.

Acostumados a ver o dinheiro da merenda virar mansão, o do hospital virar propina, o da educação virar campanha.

Acostumados a ver o corrupto virar réu, o réu virar candidato, o candidato virar ministro, o ministro virar santo na memória seletiva do eleitorado.

Enquanto isso, a desigualdade ri de nós. Os ricos compram segurança privada, helicóptero, muro mais alto. Os pobres compram grade na janela, corrente no portão, oração antes de sair. Um Brasil de dois andares: em cima, o ar-condicionado e o delivery; embaixo, o calor de 40 graus e a fila do posto de saúde que fecha às 17h. E no meio? A classe média que aplaude o “choque de ordem”, mas treme quando o boleto chega e o salário não cobre.

Nós nos acostumamos tanto que viramos especialistas em relativizar. “Mas pelo menos não é guerra civil.” “Pelo menos tem celular.” “Pelo menos o carnaval está bonito.” Enquanto o país afunda em estatísticas que ninguém lê até o fim, a gente posta meme, reclama no grupo da família e segue em frente. Porque parar dói. Porque admitir que o sistema é feito para poucos dói mais ainda.

E o pior: a gente sabe. Sabe que a violência não nasce só na arma, nasce na fome, na escola sem professor, no hospital sem remédio. Sabe que a corrupção é do Brasil que aceita o jeitinho como virtude nacional. Sabe que a desigualdade não é acidente, é projeto. Mas preferimos o entorpecimento coletivo: novela, futebol, lives de influenciador. Qualquer coisa que nos faça esquecer que, lá fora, o Brasil continua morrendo aos pedaços.

Um dia, quem sabe, a gente acorda de verdade. Não com sirene, mas com silêncio. O silêncio de quem finalmente pergunta: até quando vamos fingir que isso é normal?

E que fique ecoando, como grito preso na garganta:

Brasil, não és pátria amada, és pátria anestesiada.

Teu hino soa bonito, mas tua gente sangra calada.

Desperta, antes que o último suspiro seja só mais uma estatística na pesquisa de amanhã.

Porque o futuro não espera quem dorme em pé.

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