Ele era um hábil caçador.
Todos os dias, entrava na floresta e voltava à aldeia com duas ou três peças abatidas, o suficiente para alimentar sua família e toda a comunidade.
Mas um dia chegaram os Outros, detentores de tecnologia avançada.
Propuseram-se a comprar as presas que ele abatia. Pagariam dando=lhe tecidos, panelas e alimentos industrializados. Nem um tostão. Em contrapartida, o proclamariam caçador excelso, fariam sua imagem conhecida por toda a região.
Ele preferia ser pago em dinheiro mas acabou aceitando, até porque gostava de ser valorizado, reconhecido, mimado.
Passou a caçar com mais afinco, todos os dias: era preciso contentar os senhores da tecnologia.
E os férteis campos de caça foram se esgotando. Ele era obrigado a penetrar cada vez mais fundo na floresta, para encontrar animais de porte os únicos que os Outros aceitavam.
E os problemas começaram. Certas carcaças eram rejeitadas, sob a alegação de não atenderem aos padrões preestabelecidos pelos donos da tecnologia.
Ele tentou argumentar, mas não adiantou.
Em seguida, houve a perda da designação de “caçador excelso”. De um dia para outro. Sem qualquer explicação.
Depois veio a exigência de que as peças fossem encaminhadas uma a uma, “para facilitar a logística”.
Ele nem sabia o que era isso, mas procurou atender. Passou a dedicar mais tempo ao encaminhamento dos animais abatidos do que à caça na floresta.
E os presas cada vez mais escassas.
Então ele rebelou-se. Afiou suas lanças, jamais usadas contra seres humanos, pintou-se com as cores da guerra e investiu.
A cada arremesso, caía um monopolizador da tecnologia.
Mas as lanças se esgotaram, como vinha acontecendo com a vida animal na floresta. E a superioridade tecnológica dos Outros ia muito além do aproveitamento e encaminhamento das carcaças para centros urbanos distantes.
Morreu como um guerreiro, um rosnado de desafio nos lábios, atingido por dezenas de disparos de fuzis.
