O velho Olegário estava degustando aquela cerveja estupidamente gelada no Bar do Bosco, ali na quadra 709 Norte, em Brasília, quando Mauro Antônio e Cleidson, dois rapazolas da região, instigaram o sujeito a lhes contar suas antigas aventuras como caixeiro-viajante lá nas Minas Gerais.
Naquele tempo, por conta da falta de nota fiscal das mercadorias (exclusivamente roupas femininas) comercializadas por Olegário, ele precisava desviar das rotas óbvias para evitar a Polícia Rodoviária Federal (PRF). No entanto, apesar da malandragem adquirida ao longo dos anos, vez ou outra, o caixeiro-viajante não conseguia se desvencilhar da mão do Estado. Se bem que, no caso em questão, provavelmente o Estado fazia vista grossa para os desvios dos seus não tão nobres servidores.
Bem, melhor não deixar a conversa encompridar muito ou, então, periga do Mauro Antônio e do Cleidson irem embora sem ouvirem o fim da história. E não é que, nos idos de 1976, praticamente dois meses após ter caído em uma blitz, Olegário, com a Variant 1972 carregada de produtos, foi parado novamente? Pois foi isso mesmo que aconteceu.
— Mas que coincidência, seu guarda!
— Coincidência digo eu, seu cretino?
— Uai! Tá me ofendendo por quê?
— Por tua causa, peste, minha mulher quase que largou de mim.
— Por minha causa? Mas o que é que eu fiz?
— Pois você não se lembra daqueles trapos que você estava daquela vez?
— Tudo roupa de grife!
— Que grife que nada, que madame da alta não usa aquilo.
— Não usa porque não conhece, mas se conhecesse…
— Pois deixe de conversa fiada, seu, seu…
— Olegário.
— Pois que seja, Olegário, seu safado!
Olegário observou que o nome de guerra do policial era Graça e, brincalhão que era, resolveu arriscar.
— E qual é a sua graça, seu guarda.
— Graça.
— Sim. É justamente isso que quero saber.
— Quer saber o quê?
— A sua graça.
— Graça! Já disse!
— O senhor está me dizendo que a sua graça é Graça?
Já perdendo a paciência, mas não querendo deixá-la escapar por completo, o policial Graça apontou para o nome de guerra costurado logo acima do bolso do uniforme. Obviamente que Olegário sorriu o sorriso dos cínicos, mas sem ser de todo debochado.
— Que coincidência, né, seu guarda?!
— Hum! O que você tem aí hoje?
— Só material do bom.
— Quero ver!
Após o caixeiro-viajante abrir as sacolas e mostrar as mercadorias, o policial catou as mais bonitas e as colocou no banco da viatura. Já as demais, ele já foi metendo no porta malas. Foi aí que o Olegário percebeu que dois vestidos dos mais lindos tinham ido parar na traseira do carro da polícia.
— Uai, seu guarda, acho que a sua digníssima iria adorar aqueles dois vestidos que o senhor acabou de colocar no porta-malas.
— Hum!
— Tenho certeza!
— Aqueles não servem.
— Não servem? Como assim?
— É que a minha Maria Rita engordou um tiquinho.
— Hum! Isso não é problema, meu amigo.
— Não entendi.
— Vamos fazer o seguinte. Acordo de cavalheiros, claro.
— Hum! Pois diga.
— Se o senhor me devolver todas aquelas roupas do porta-malas, eu prometo, palavra de caixeiro-viajante, que não sou moleque, que vou providenciar dois belos vestidos todos os meses para a sua esposa. Mas o senhor não pode mais confiscar minhas mercadorias. De acordo?
O policial, apesar de ressabiado, aceitou o acordo. E, por mais de 15 anos, Maria Rita imaginou que havia se casado com o homem mais apaixonado da região. Tudo graças ao acordo firmado entre seu marido, o policial Graça, e o caixeiro-viajante Olegário.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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