Olegário, morador da Asa Norte, em Brasília, gostava de entreter os de bom ouvido com histórias do seu tempo de caixeiro-viajante na região da Zona da Mata Mineira entre os idos de 1970 e 1990. Não raro, quando se sentava para tomar umas no Bar do Bosco, dois ou três já puxavam cadeiras certos de que teriam o que recontar para outrem.
Naquela época, o sujeito havia se especializado na compra e revenda de roupas femininas. Ele adquiria as peças das diversas confecções na cidade de Visconde do Rio Branco e, em seguida, pegava a estrada para ofertá-las nos diversos outros municípios, entre os quais Matias Borba e Juiz de Fora. O lucro era razoável, ainda mais porque quase sempre aquelas indústrias fabris não emitiam nota fiscal.
Para se livrar da fiscalização, Olegário se embrenhava por um caminho ou outro. Na maioria das vezes, ele conseguia se desvencilhar das garras da Polícia Rodoviária Federal, mas quando caía, ih, o momento se tornava tenso, ainda mais porque alguns policiais, naquela época, não eram conhecidos por serem, digamos, tão probos assim. E pensar que tem gente que tem coragem de dizer que antigamente que era bom.
Pois bem, lá estava o caixeiro-viajante retornando para o lar, doce lar depois de vender quase todo o produto. Havia sobrado apenas 10 ou 12 peças, entre vestidos, saias, blusas e duas calcinhas. Todas horrorosas por sinal. Mas eis que Olegário, ao volante da sua Variant 1972, percebeu que havia uma blitz na estrada. Não teve dúvida e, por impulso, deu marca à ré e, assim que foi possível, retornou e entrou na primeira vicinal, quando o pior aconteceu.
Acredite ou não, dois soldados do exército, ao lado de um veículo parado no acostamento. Os militares, que estavam no local por conta de não se sabe o quê, apontaram os fuzis para Olegário, que brecou na hora, parando ao lado dos homens.
Mãos erguidas, Olegário já foi dizendo que o carro não tinha drogas nem armas e, num ímpeto infeliz de honestidade, acabou confessando que estava portando algumas roupas sem nota fiscal. Os soldados se entreolharam, conversaram por alguns instantes e, então, um deles se dirigiu ao caixeiro-viajante.
— Siga a gente.
Sem alternativa, Olegário ligou a Variant e foi atrás do veículo do exército até a blitz. Lá, os soldados conversaram por um momento com um dos policiais, que, não tardou, teve o seguinte interlúdio com o caixeiro-viajante.
— Então, cidadão, você está com roupas sem nota fiscal, né?!
— Sim, seu policial.
— Cadê essas roupas?
— Estão aqui no banco de trás.
O policial olhou as peças e, com cara de puro desalento, reclamou:
— Mas só tem roupa feia.
— Pois é, seu policial. Por isso que não consegui vende-las.
— Bem, como não tem outro jeito, vou ficar com elas mesmo.
Depois de meter a mão nas peças de roupas, o agente da lei liberou o Olegário, que parecia consternado com alguma coisa.
— Pode ir, cidadão. Já tá liberado.
— Seu policial, posso te pedir um favor?
— Favor?
— Sim.
— Mas você é mesmo cara de pau. Mas diga lá.
— O senhor poderia me devolver um vestido e uma calcinha?
— O quê?
— Pode ser esse amarelo mesmo, que é o mais feio. E qualquer uma das calcinhas.
— E pra que tu quer isso?
— É pra mim.
— Pra tu?
— Seu policial, é que estou numa precisão que o senhor não imagina.
— Que precisão, homem?
— É que me borrei todo quando os milicos me apontaram aqueles trabucos.
Não se sabe se foi por compaixão ou para se livrar logo do Olegário, mas o policial lhe cedeu as peças solicitadas. E não pense você que o difícil tenha sido a vergonha de voltar para casa de vestido e calcinha. O pior mesmo foi ter que explicar a história para a esposa.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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