Enquanto o mundo se prepara para celebrar a virada do ano, milhões revisitam o ritual anual das promessas e listas de desejos. A esperança coletiva parece depositada em um milagre do calendário: a ideia de que, magicamente, em 1º de janeiro, tudo será diferente. Mas uma verdade simples e incômoda permanece: se as ações e escolhas continuarem as mesmas, 2026 será apenas uma repetição de 2025 com um novo rótulo. O calendário muda. A vida, só muda quando algo muda dentro de nós.
Para muitos, 2025 pode ter sido um ano de muito esforço, ou de fuga, ou uma mistura paradoxal de ambos. Foi um período em que o excesso de ocupações abafou o silêncio necessário para a escuta interna; um tempo em que cuidar dos outros ofuscou o cuidado consigo mesmo; um ciclo em que promessas antigas, já conhecidas pelo gosto do fracasso, foram repetidas. Reconhecer esse cenário não é um ato de culpa, mas de maturidade emocional.
Há um ponto crucial que muitas vezes evitamos: a repetição não é simples azar, mas sim um padrão não revisado. Relacionamentos semelhantes, conflitos familiares, escolhas profissionais que levam ao mesmo desfecho tendemos a chamar isso de “destino” ou “fase ruim”, quando, na realidade, é o reflexo de hábitos e decisões que se recusamos a alterar.
Quantas vezes, ao longo de 2025, você percebeu que algo não fazia mais sentido, mas permaneceu na mesma situação por medo da mudança? Quantas vezes seu corpo pediu pausa, e a resposta foi mais café, mais telas, mais urgência? Quantas vezes você soube exatamente o que precisava ser cuidado e, ainda assim, escolheu adiar?
Adiamos porque mudar assusta. No entanto, permanecer em situações que nos causam dor cobra juros emocionais cada vez mais altos. Falar de autocuidado se tornou popular, mas pouco se discute sobre sua face menos glamorosa: cuidar de si significa encarar feridas, estabelecer limites saudáveis, rever relações tóxicas, aprender a dizer “não” e ter coragem para mudar rotas. Não se trata de um luxo, mas de sobrevivência emocional com dignidade. Autocuidado não é apenas estética é responsabilidade. É parar de se abandonar na esperança de que o mundo preencha esse vazio.
Talvez você ainda espere pelo “momento certo” para começar diferente. No entanto, esse momento raramente chega por si só quem costuma chegar primeiro é o esgotamento, o corpo somatizando o cansaço, a vida exigindo coerência entre o que se deseja e o que se vive.
Cuidar de si é um ato silencioso de coragem. É escolher não repetir o que já se provou insustentável. É honrar a própria história sem permanecer preso a ela. O fechamento de 2025 não pede promessas grandiosas e distantes; pede honestidade. Pede uma pergunta essencial: o que, dentro de mim, precisa mudar para que 2026 não seja apenas mais do mesmo?
Se 2026 for construído apenas com metas externas novos projetos, novas aquisições, novas aparências, o cansaço virá rápido. Mas se for um ano marcado por mais presença, limites claros, escuta interna profunda e menos autoengano, então, sim, ele poderá ser verdadeiramente novo. Não porque o mundo girou em torno do sol mais uma vez, mas porque você decidiu parar de se tratar como última opção.
Que 2026 não seja perfeito. Que seja consciente. E isso, por si só, já tem o poder de transformar tudo.
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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa
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