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O Cheiro de Rabanada na Rua Velha

Era uma vez, em uma cidadezinha do interior brasileiro, uma rua chamada Rua Velha. Não era velha por ser antiga, embora fosse, mas porque todo mundo que morava ali parecia carregar um pouco do tempo nas costas. Casas baixas, pintadas de cores desbotadas pelo sol, varandas com cadeiras de palha onde os velhos jogavam conversa fora, e um cheiro constante de café coado misturado com o perfume das dama-da-noite.

Chegava dezembro, e a Rua Velha se transformava. Não com luzes piscantes importadas ou árvores de Natal de shopping, aquilo era coisa de cidade grande.

Aqui, o Natal chegava devagar, como quem não quer fazer alarde, mas acaba enchendo a casa de gente.

Dona Lúcia, viúva há quinze anos, era a primeira a dar o sinal. Todo dia 15 de dezembro, ela acendia o forno a lenha no quintal e começava a fazer rabanadas. O cheiro, ah, aquele cheiro de pão embebido em leite, canela e açúcar subia pela rua inteira como um chamado.

As crianças paravam de brincar na calçada, os cachorros levantavam o focinho, e até Seu Zé, o carteiro que nunca falava com ninguém, diminuía o passo só para sentir mais um pouco.

Naquele ano, porém, Dona Lúcia estava quieta demais. A filha tinha ido passar o Natal com os netos em São Paulo, e a casa grande parecia ainda maior sem barulho. Ela pensou em não fazer as rabanadas. “Pra quê?”, disse para o espelho. “Vou comer sozinha mesmo.”

Mas o cheiro tem memória própria. E a Rua Velha não esquece.

Na véspera de Natal, quando o sol já se punha avermelhado atrás da igreja, bateram na porta de Dona Lúcia. Era a pequena Ana, de sete anos, com o vestido mais bonito que tinha, aquele de bolinha vermelha que a mãe costurou no ano passado.

—Tia Lúcia, a senhora vai fazer rabanada esse ano?

Dona Lúcia sorriu sem vontade.

—Não sei, meu bem. Tô sozinha esse ano.

Ana olhou para ela com aqueles olhos grandes que só criança tem.

—Mas a gente não tá aqui?

E era verdade. Atrás de Ana vinham o pai, a mãe, o irmão mais velho que tocava violão mal mas com vontade, a vizinha do lado que trouxe uma garrafa de sidra quente, o Seu Zé com um pacotinho embrulhado em papel pardo (era um panetone que ele ganhou no trabalho e nunca ia comer sozinho), e até o cachorro vira-lata que todo mundo alimentava.

Eles entraram sem pedir licença, como quem entra em casa de família. Alguém acendeu o forno. Outro colocou música baixa no rádio — era o Roberto Carlos cantando “Então é Natal”. A cozinha se encheu de vozes, risadas, cheiro de canela.

Dona Lúcia, sem perceber, já estava cortando o pão velho, batendo ovos, aquecendo o leite. As mãos tremiam um pouco, mas era de emoção.

Quando a primeira fornada ficou pronta, dourada e crocante, ela colocou na mesa grande da sala. Todo mundo se serviu. Ana lambuzou a cara de açúcar. Seu Zé comeu três pedaços sem falar nada, mas com os olhos brilhando.

Naquela noite, a Rua Velha inteira comeu rabanada na casa de Dona Lúcia. Não porque ela convidou, ela nem teve tempo, mas porque o Natal, às vezes, não pede licença. Ele simplesmente chega, trazido pelo cheiro de algo que a gente ama, pela voz de uma criança, pela solidão que não quer ficar sozinha.

E no fim das contas, ninguém estava sozinho. Nem Dona Lúcia. Nem ninguém.

Porque Natal, na Rua Velha, não é dia de presente caro ou ceia farta. É dia de lembrar que a gente pertence a alguém. E que alguém sempre pertence à gente.

Feliz Natal. Que o cheiro da sua rabanada encontre quem precisa.

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