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O corno e as poucas balas para matar garanhões

Contando pokemons na parede encardida do boteco lotado onde eu degustava uma loura geladíssima – não gosto das quentes -, vi um sujeito indeterminado, de estatura agigantada adentrando o recinto com uma pistola 9mm e dois carregadores com 12 balas cada. De cara, imaginei um desses bolsonaristas descompensados e sem rumo. Me enganei. Pela caminhada sorrateira do baitola, percebi logo depois que se tratava de um corno. Talvez por experiência ativa ou passiva, conheço esses tipos de longe. O malandragem entrou, fechou a porta e, aos berros, perguntou qual dos numerosos clientes estava pegando sua mulher.

Silêncio geral, sepulcral, menstrual e quase sexual tomou conta do sagrado recinto cervejeiro. Depois de alguns segundos de entreolhadas daqui e dacolá, um senhorzinho aparentando ter sido o primeiro a aplicar os cornos no camarada cheio de balas levantou-se e, do alto de sua banqueta rubro-negra, disse meio entre os dentes: Oxente, vou dizer não, sô, mas acho que vosmicê trouxe foi pouca bala. Até hoje não sei se o cidadão era nordestino, nortista ou do interior de Minas Gerais, terra do governador Romeu Zema. Irrelevante conhecer a naturalidade do indivíduo.

Relevante foi a certeza de que nem tudo que o homem procura é o que o homem realmente necessita. No caso em questão, o elemento tentava descobrir um comedor falador, mas encontrou vários silenciosos. É a tal história de que, seja para o bem ou para o mal, quem procura sempre acha. Às vezes, encontra mais do que estava procurando. Diz o ditado que fuçar é sinônimo de chorar. A verve popular vai além e mostra que, ao procurar um prego, podemos achar uma tacha, uma faixa, mas nunca uma racha. Mostra também que cornos conscientes jamais devem dividir suas angústias com a patroa.

Caso isso ocorra, é grande o risco de ser considerado fofoqueiro pelo vizinho. Portanto, como, em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos, o melhor é não procurarmos o que não deve ser achado. Considerando que, para se chegar ao céu, é preciso antes passar pelo inferno, o melhor de uma boa caçada de submarinos na banheira alheia é não deixar rastro. Como o sujeito corno que nunca soube quem estava pegando sua patroa por trás, não devemos esquecer jamais que são as pegadas que deixamos pelo caminho que nos dirão se iremos voltar.

Mesmo nas piores crises de minha atual fase de velho de programa, uso a tese da primeira baforada de Bob Marley, para quem a vida é para quem topa qualquer parada e não para quem para em qualquer topada. Em outras palavras, perco a razão, as calças e a graça, mas não desisto da escada da vida, pois, dizem os bebuns, que a felicidade pode estar no último degrau. Sou do tempo em que chupetinha era somente uma carga extra na bateria descarregada do veículo automotor. Hoje, além de alcunhar um servil deputado bolsonarista, o termo também significa aquilo capaz de levar o macho alfa do sol à lula em 28 segundos.

Voltando ao corno do botequim, é sempre bom lembrar que, com chifres ou sem chifres, o importante é ser feliz, independentemente de que nos metam o pau pelas costas. Afinal, um homem sem chifre é um animal indefeso. Considerando a semelhança do chifre com o mau hálito (todos sabem que você tem, menos você), melhor torcer para que nos metam o pau pela frente. Por exemplo, se a gente não pode molhar o biscoito no Rodoanel do Paulo Maluf ou descabelar o palhaço na Rua Tapaxanas, devemos fugir como o Diabo da Cruz do Minhocão do Mário Covas. Curiosamente as três vias públicas ficam em São Paulo, onde normalmente um ex-presidente acaba virando uma marginal.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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