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O DIA EM QUE UM LIVRO MEU PARTIU SOZINHO PELO MUNDO

Meses atrás, passando pela Estrada do Joá, no Rio de Janeiro, durante um passeio de sábado à tarde com meu filho e meu pai, parei num pequeno mirante da curva fronteira a um velho prédio erguido ainda nos anos 1920, onde por muito tempo funcionou um restaurante, hoje desativado.

Ficamos ali por alguns minutos, embevecidos pela vista que se abre para o Atlântico, para as ilhas Tijucas, para o azul de São Conrado e para o recorte inconfundível do morro Dois Irmãos. Nuvens cobriam a parte visível da Pedra da Gávea, esse monólito que, atrás de nós, dominava toda a paisagem com sua majestade silenciosa.

Notamos também, junto à entrada de um condomínio próximo, uma dessas caixas em que se depositam livros para que outros, livremente, os levem consigo. Minha curiosidade habitual pelos livros fez com que eu me aproximasse. Lá dentro vi uma novela de Mario Puzo, um exemplar de Universo em Desencanto e mais alguns títulos em idioma estrangeiro, entre eles um dicionário de economia.

Levei comigo o Universo em Desencanto. Sempre tive curiosidade a respeito desse livro, sobretudo depois de ouvir os excelentes discos que Tim Maia gravou quando entrou para essa religião — da qual, como se sabe, sairia em pouco tempo. O exemplar estava novo, ainda fechado. Ao mostrá-lo aos meus companheiros de passeio, ouvi deles que eu também devia providenciar para que um livro meu estivesse ali. Por sorte, eu trazia no porta-luvas um exemplar de A Verdade nos Seres. Depositei-o na caixa, fechei a portinhola e seguimos adiante.

Meses depois, voltando ao lugar com meu filho, ele sugeriu que verificássemos se o livro de poemas ainda permanecia ali. Aproximei-me da caixa quase com o coração sobressaltado e, ainda pelo vidro da tampa, vi que a um novo exemplar lacrado de Universo em Desencanto se juntavam alguns romances estrangeiros em brochura e um exemplar de Vidas Secas, do velho Graça. A Verdade nos Seres já não estava mais.

Talvez tivesse sido levado em troca. Talvez alguém apenas se interessasse pela capa, o pousasse depois num canto qualquer de estante e nunca mais o abrisse. Ou, quem sabe, algum leitor o houvesse levado para casa e encontrado ali um poema capaz de lhe falar de maneira muito particular, dessas que não se explicam bem, mas permanecem. Não havia como saber. E talvez fosse justamente isso o mais bonito.

No caminho de volta, fiquei pensando em como a gente pode se espalhar pelo mundo por meio dos livros, deixando em mãos desconhecidas alguma coisa de si sem jamais saber onde foi parar. Muitos livros transformaram a minha vida ou, se não chegaram a tanto, ao menos me acrescentaram uma lente nova para olhar o mundo. Talvez o destino de quem escreve seja esse também: aceitar que, em algum momento, a palavra deixa de nos pertencer.

Desde então, gosto de imaginar que aquele exemplar de A Verdade nos Seres segue sua pequena viagem anônima. Talvez repouse numa mesa de cabeceira, talvez tenha sido lido pela metade, talvez permaneça à espera de olhos mais atentos. Pouco importa. O simples fato de não estar mais na caixa já me basta. Um livro, afinal, só começa verdadeiramente a sua vida quando sai de nossas mãos e entra, em silêncio, na história dos outros.

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Daniel Marchi é poeta e contista, editor de Notibras, advogado e professor no Rio de Janeiro.
Autor de “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”. Instagram: @prof.danielmarchi

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