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O filme estrelado por Wagner Moura não termina quando os letreiros iniciam

No início do mês passado, fui ao cinema assistir a O Agente Secreto, filme do diretor Kleber Mendonça Filho, que conta com a atuação sempre brilhante de Wagner Moura. Saí da sala com aquela sensação de ter visto algo que não acaba quando a luz acende.

Não é, definitivamente, um filme para quem busca apenas se distrair enquanto come pipoca. O Agente Secreto exige presença, escuta e alguma coragem emocional. É o retrato de um Brasil mergulhado em um regime autoritário, mas curiosamente habitado por personagens que são docemente tristes. Ou tristemente alegres. Há uma melancolia suave que atravessa o filme inteiro, como se a dor já estivesse tão entranhada que tivesse aprendido a conviver com o riso.

O humor da “perna cabeluda”, quase absurdo, quase infantil, contrasta com a densidade política do enredo e funciona como respiro e denúncia ao mesmo tempo. Nada ali é gratuito. E, como se não bastasse, a presença de Tânia Maria empresta ao filme uma naturalidade confortável. Sua voz de alcatrão e nicotina cria um efeito de intimidade, de casa conhecida, de memória afetiva que atravessa gerações. É como ouvir alguém da família cantar verdades duras sem elevar o tom.

O filme é brilhante, potente, e merece todo o hype que vem recebendo. Mas deixo aqui um aviso honesto, quase um cuidado: O Agente Secreto não se limita à duração da sessão. Ele permanece. Volta em cenas soltas, em diálogos lembrados fora de contexto, em pensamentos atravessados no meio do dia. É desses filmes que se instalam silenciosamente e ficam reverberando dentro da gente.

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