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O garoto estava com 10 anos quando trocou as plagas tupiniquins

Uma grande amiga minha mudou-se para os Estados Unidos com o marido e o filho – algo temporário, que acabou se estendendo por 5 anos. Não eram imigrantes ilegais; o marido, físico empregado em uma multinacional, foi convocado a trabalhar na matriz. Mas não é ele o protagonista desse texto, e nem minha amiga. O herói improvável é o filho, a partir de agora chamado de Lancelot.

O garoto estava com 10 anos quando trocou as plagas tupiniquins pela gringolândia. Ou seja, saiu do Brasil ainda pré-adolescente e começou a adolescer em inglês, em Frederick, cidadezinha de Maryland, famosa por, segundo dizem, abrigar um monstro pavoroso, o Snallygaster (que teve um papel destacado em meu conto Monstruosidades). Sei, por experiência própria, que adolescer é barra, mas só posso imaginar, por livros e filmes, como é viver essa fase espinhosa nos domínios de Trump.

No início de sua adolescência, Lancelot mandava para minha filha, minha neta e moi vídeos de suas aventuras com esquilos locais – não de caça com espingardas de chumbo, ao contrário, de como transformou a varanda da casa num oásis para a esquilada. Com o tempo, os vídeos cessaram, ele deve ter se enturmado com a turminha local. Seja como for, o brazuco-americano dominou o inglês com tamanha maestria que escreveu um romance na linha de Stephen King, talvez inspirado pelo monstrengo. Li o texto, enviado não por ele, por sua mãe, e posso assegurar que é fucking good (ou seja, bom pra dedéu, bom pra chuchu, bom pra cacete).

Só que adolescentes que escrevem romances aos 14 anos dificilmente se tornam all american boys. Lancelot não brilhava, para dizer o mínimo, em futebol americano, basquete, vôlei, beisebol, hóquei sobre o gelo e por aí vai; devia ser visto como um aprendiz de nerd. Com o ingresso na high school, o nosso ensino médio, a tigrada esportiva arreganhou as presas, pronta a submeter o imigrante a um inferno de bullying.

Só que, antes disso, a família voltou ao Brasil: pai, mãe, filho e uma gatinha incorporada, a Sweetie. Não pra São Paulo, de onde partiram todos (menos a ferinha); foram parar em João Pessoa, na Paraíba.

E o pobre Lancelot teve de encarar nova aculturação. No conto Raimunda, narro as dificuldades de Sweetie para aprender a miar em português, tendo de trocar o meeow pr um singelo miau; imagino Lancelot passando por algo semelhante, aprendendo na porrada que precisa chamar os novos colegas de “macho”, não de mashiow.

Mas a aculturação tem duas vias. Imagino trocas de mensagens entre Lancelot e alguns raros amigos (provavelmente nerds cascudões, todos eles) da Trumplândia. Eles não devem ter entendido pissirongas quando foram chamados amistosamente de “goat of the plague” (cabra da peste) e “goat of the desease” (cabra da molesta). Mas o que deve ter feito rodar suas cabecinhas nérdicas foi a qualificação, feita por Lancelot, de um evento ou situação, aqui ou nos States, como sendo “of the quiet drop” (da gota serena). Afinal, é preciso um domínio pleno do nordestês para saber se o vivente quis expressar irritação, raiva, admiração, avaliação de grandeza, espanto, ou se apenas a utilizou de sacanagem, porque deu vontade, ou talvez para não falar um palavrão. Alguém imerso na cultura local, paraibo-nordestina, consegue perceber tais nuances, mas é areia demais para um caminhãozinho ianque.

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