Vou compartilhar uma história em que, a exemplo de outras já brilhantemente narradas pelo meu amigo escritor Plinio Pavão, “não existem motivos para duvidar da veracidade da narrativa ou da idoneidade de quem me contou”.
Estava eu a trabalho em uma comunidade metropolitana da grande São Paulo, quando avistei no centro da cidade a “Adega Puro Vinho”.
Na condição de inveterado apreciador de vinhos – como quase todos os gaúchos – não resisti e entrei para conferir as delicias do simpático lugar.
Então conheci o seu Olegário, proprietário do estabelecimento, um senhor que já devia andar lá pelos seus oitenta outonos.
Conversa vai, conversa vem, entre comentários sobre as preciosidades vinícolas expostas nas prateleiras, ele fez uma observação poética/filosófica que me chamou a atenção:
—O vinho é a literatura em forma de líquido!
Então perguntei a ele:
— O senhor gosta de ler?
Sorrindo com condescendência, ele respondeu:
— Certamente, li mais livros do que todas as taças de vinho que o amigo já degustou!
Sorrindo de volta, expliquei a ele que eu era escritor nas minhas horas vagas e tinha acabado de publicar um livro de contos:
“A felicidade e os risíveis amores de todos nós”.
— Gostaria muito de lhe oferecer um exemplar autografado, falei, já abrindo a minha pasta de trabalho.
Surpreso, seu Olegário respondeu gentilmente:
— Será uma honra ler o seu livro, meu filho, o título é por demais interessante e promete muitas emoções.
Após entregar o livro com a dedicatória, ele perguntou:
— Em retribuição a sua gentileza, você gostaria de ouvir uma história surreal (mas verídica) para integrar o seu próximo livro?
Maravilhado, repliquei:
— Com certeza, seu Olegário, o que mais aprecio é ouvir histórias que inspirem bons contos para os meus leitores!
Então, ele serviu duas taças de uma garrafa de vinho tinto tirada do alto da prateleira, convidou-me para sentar e falou:
— Esse é só para os amigos!
Após brindarmos ao vinho e à literatura, seu Olegário advertiu:
— Essa história aconteceu na década dos anos 1970, naturalmente, os nomes dos personagens são fictícios para proteção de alguns dos envolvidos que ainda são vivos e moram nesta comunidade.
— Naturalmente, posso gravar para não perder nenhum detalhe?
— Pode, só peço a gentileza de não me interromper, pois assim eu perderia o ritmo da narrativa.
— Claro, seu Olegário!
Então, como que tomado por uma magia astral, ele começou o causo:
O senhor K, meu amigo, era professor de português da mais prestigiada escola da cidade.
Homem circunspecto, solteiro por opção, reservado, tranquilo e respeitador, morava em uma pensão familiar desde que chegou à cidade.
Não obstante, ele teve uma fraqueza: desenvolveu uma paixão platônica dilacerante pela diretora da escola, professora Naomi, uma nissei muito bem aquinhoada física e intelectualmente.
Ela percebia os inadvertidos olhares ardentes que ele lançava na sua direção quando estavam juntos na sala dos professores, assim como a voz embargada dele quando se falavam, mas fingia nada notar, tratando-o tão natural e profissionalmente quanto aos outros professores.
Naomi era casada há dois anos com Setembrino, motorista de caminhão. Dizem que foi uma paixão avassaladora que superou as acentuadas diferenças entre eles, mas que, naquele momento, não vivia os seus melhores dias. Ele andava frio e distante com ela, parecendo ter perdido o ardor do primeiro ano da união conjugal.
Em uma sexta-feira, no fim do turno da noite, ela chamou K para a sua sala e falou, carinhosamente:
— Professor K, será que você poderia me deixar em casa hoje? Meu carro está na oficina e tive que vir de táxi para a escola. Já que moramos no mesmo bairro, pensei que talvez isso não seja um incômodo para você…
Embasbacado e radiante, K parecia não acreditar naquela inesperada ventura.
— Claro, claro, diretora Naomi! Será um imenso prazer!
O percurso de meia hora ao lado de Naomi no carro pareceu uma eternidade e, ao mesmo tempo, um instante de puro êxtase para o apaixonado K.
Já em frente da casa da bela passageira, ele ouviu aquilo que habitava os seus sonhos há muito tempo:
— Aceita um convite para um café? É o mínimo que posso fazer para retribuir a sua gentileza.
Sem acreditar naquele doce convite, o atrapalhado K tentou articular qualquer coisa parecida com uma preocupação:
— Eu adoraria, mas não sei se isso seria adequado… quer dizer, seu marido… não quero causar problemas!
— Ah, o Bino só volta amanhã depois do meio-dia, foi levar uma carga para Curitiba.
— Bem, se a diretora insiste…
— Me chame de Naomi, caro K!
Após os dois beberem o café rapidamente preparado por Naomi, ela aproximou-se dele com um olhar de tigresa, sentou-se no seu colo, abraçou-o e falou com voz melosa, mas incisiva:
— K, eu sei que você é apaixonado por mim… e hoje estou precisando de você!
A seguir, K viajou deliciosamente pela galáxia e, depois dessa extasiante jornada nas estrelas, acordou às oito da manhã com os gritos de Naomi:
— K, acorda! O Bino acabou de estacionar o caminhão na frente da casa! Sai já pela janela!
Aturdido e desnorteado, K teve apenas o reflexo de pegar os óculos antes de obedecer à desesperada ordem da sua amada.
Ainda em estado de choque, ele só percebeu que estava inteiramente nu quando pulou o muro e deu de cara com duas beatas que se dirigiam à igreja do bairro. Os gritos das mulheres fizeram com que corresse atabalhoadamente pela rua, afastando-se ainda mais das suas calças.
Dentro da casa, Naomi enfiou apressadamente em uma gaveta da cômoda as vestes e outros objetos deixados pelo colega.
— Bino, que surpresa! Chegou mais cedo hoje?
— Pois é, mulher…nem sei por que, essa manhã a estrada estava livre e desimpedida!
Traduzindo: — Doralice, minha amante, não aceitou mais as minhas desculpas para não me separar de você e casar com ela, então me expulsou da casa dela antes mesmo do café.
Sentindo que o paraíso visitado há poucas horas tinha se transformado em um inferno, K não mais raciocinava, apenas fugia dos olhares espantados e gritos que a sua louca e desnuda corrida provocava.
Ao mesmo tempo em que acelerava o seu sprint, o homem nu colocava uma mão no rosto e a outra nas partes baixas a fim de precariamente tentar ocultar a identidade e cobrir a intimidade.
Intuitivamente, ele virava esquinas e esgueirava-se atrás de árvores na tentativa de despistar a crescente multidão de curiosos que já o perseguia.
Esbaforido, sentiu um calafrio de alto a baixo quando ouviu sirenes de viaturas policiais chegarem cada vez mais perto.
Então, em desespero de causa, decidiu saltar o muro mais próximo e invadir o pátio de uma residência.
Deu de cara com uma dona de casa que estava estendendo as roupas no varal e, de imediato, com os estridentes gritos da pobre senhora. Em um ato-reflexo, o infeliz K passou a mão em um lençol branco e correu para o muro que dava acesso à rua de trás da casa, enquanto a moradora vilipendiada continuava gritando a plenos pulmões:
— Socorro, um tarado! Ele tentou me atacar!
Ganhando a outra rua e vendo uma guarita de vigia na calçada — que para a sua sorte estava vazia — K teve uma iluminação: meteu-se no interior da cabine, agachou-se e se cobriu com o lençol, deixando o resto nas mãos dos deuses.
Logo ouviu o barulho dos gritos da multidão e das sirenes policiais virando para o logradouro e passando em frente à guarita.
O coração de K pareceu saltar da boca quando escutou passos de alguém se aproximando e o som da portinhola da cabine se abrir.
— Não tem ninguém aqui, só um lençol cobrindo uma cadeira, falou a voz, afastando-se.
Então, ele conseguiu respirar. Ainda tenso, porém mais aliviado, pensou:
— Vou ficar entocado aqui até o cair da noite. No escurinho vai ser mais fácil chegar despercebido à pensão.
Planejando usar o lençol como cobertura para a sua nudez, começou a fazer dois furos no tecido com um garfo que encontrou no interior da guarita.
Seguindo o plano, logo após o sol se pôr, K envergou o lençol e, cuidadosamente, olhou para todos os lados.
Verificando que o terreno estava livre, caminhou o mais rápido que podia, sempre parando atrás de árvores e postes para se ocultar de olhares de munícipes que por ventura estivessem na área.
Não obstante, um morador de um prédio viu o vulto branco e, já sabedor da caça ao tarado nu, fotografou os seus movimentos furtivos. Fotógrafo amador, telefonou para um jornal e para uma emissora de TV da capital oferecendo as fotos.
Como seria de se esperar, a notícia de um homem nu correndo pelas ruas dominou a pauta na cidade, logo chegando com força às redações e mídias de toda a região, inclusive da capital dos paulistanos.
— Será uma pegadinha do Malandro?
— Um case publicitário para o lançamento de algum produto, talvez uma nova marca de cueca?
— Um ataque dos comunistas contra a família e a religião?
— Um hippie saudosista tentando reviver os anos 60?
— Haveria alguma relação do tarado com o fantasma que foi fotografado rondando a cidade durante a noite?
— Talvez uma alma penada que voltou para se vingar de alguma injustiça sofrida em vida quando estava nu?
Nas mídias mais sofisticadas, especialistas da ampla temática em tela (psicólogos, sociólogos, filósofos, ocultistas) foram chamados para tentar elucidar as motivações do homem nu, bem como a possível relação do mesmo com o suposto fantasma fotografado à noite.
— Professor, então o senhor acredita que isso possa ser uma manifestação libertária, um grito de protesto frente às regras castradoras e às proibições da civilização?
— Sem dúvida, Márcia! Freud já demonstrou que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem se tornou a principal causa dos distúrbios psicológicos e das frustrações humanas do nosso tempo.
— E qual seria o objetivo mais íntimo do homem nu através dessa corrida pública desnuda, professor?
— Acredito que o homem nu está nos dizendo que a verdadeira essência da felicidade somente será alcançada quando todos estiverem despidos das suas máscaras, das suas armaduras e também das roupas que nos afastam da natureza. Todos nus, inclusive você e eu!
Nesse momento, consta que a entrevistadora arregalou os olhos e, imediatamente depois de um close na sua face ruborizada, a entrevista deu lugar aos comerciais do patrocinador, no caso, o chuveiro Corona.
Já em outras rodas mais voltadas ao ocultismo e à religiosidade, analisava-se o fenômeno tendo como centro a aparição noturna do fantasma após a corrida matutina do homem nu:
— Com certeza, ele retornou durante o dia para complementar alguma missão pessoal importante que ficou pela metade e, depois, novamente desencarnou à noite.
Em meio à efervescência dos debates entre os munícipes e nos meios midiáticos, milagrosamente, K conseguiu chegar à pensão onde residia sem ser interceptado ou questionado. Ladinamente, entrou pela janela do seu quarto que dava para um terreno baldio.
— Bendita janela que nunca consegui travar direito, pensou, agradecido à falta de cuidados com o imóvel por parte da dona da pensão.
De pronto, colocou o lençol furado no roupeiro, tomou um banho demorado e uma taça de vinho, mergulhando em seguida na cama. Logo apagou e sonhou a noite inteira com Naomi.
No dia seguinte ao se encontrarem na escola, K e Naomi olharam-se com um misto de culpa, alívio e doce cumplicidade.
Com os olhos brilhando e um tom de voz afrodisíaco, a diretora falou:
— Professor K, a sua palestra sobre literatura latino-americana começa em quinze minutos!
— E assim chegamos ao fim da história, meu amigo! Gostou?
— Puxa, adorei, seu Olegário, sensacional! Mas já acabou?
— Isso é tudo que eu posso contar!
— Entendo, é que eu gostaria de saber como evoluiu o caso entre o professor K e a diretora Naomi…
— Sei, mas deixo isso para a sua imaginação, caso o amigo decida escrever essa história. Obrigado pelo livro e por escutar esse velho recluso.
Levantei, peguei os litros de vinho que havia comprado, abracei seu Olegário e falei:
— Agradeço de coração os vinhos, a história e a sua preciosa amizade, seu Olegário! Considere-me um amigo e um freguês permanente do seu estabelecimento.
Quando eu saía da adega, cruzei na porta com uma senhora de feições orientais.
Curioso, perguntei sobre ela para dois idosos fregueses do estabelecimento que conversavam na calçada.
— É a dona Midori, foi diretora da maior escola da cidade até se aposentar.
— Foi colega do Olegário, ele também foi professor nessa escola.
— Hum… e eles são amigos ou algo mais?
Os dois riram, e um deles falou:
— Ele sempre foi solteiro e ela se separou do marido logo depois da história do fantasma peladão que assombrou a cidade há muitos anos.
—Eles nunca se casaram e moram separados, mas são como unha e carne!
— Uma última curiosidade, vocês sabem o sobrenome do seu Olegário?
— É Kaminski, respondeu um dos meus interlocutores.
Agradeci a prosa e, sorrindo, pensei:
— Que história, vou escrevê-la tomando um desses vinhos maravilhosos… e, é claro, vou omitir a cidade e também dar nomes fictícios aos personagens e à adega. Seu segredo continuará seguro, amigo Olegário!
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