Quando me perguntam de onde tiro tantas ideias para meus afamados causos nos convescotes com amigos e parentes, respondo que nem preciso ir muito longe, que as histórias me são apresentadas por personagens dignos de novelas mexicanas. Para falar a real, digo até que nem sei como seriam essas tais figuras, pois a última novela que vi, caso a memória não tenha me roubado a razão, foi Estúpido Cupido, em 1976, aos pés da minha avó Maria Stella.
Mas voltemos aos corridos dias de agora, quando já estou beirando a casa dos 60 anos. Pois fui testemunha quase ocular de uma desavença familiar, no mínimo, curiosa. Isso para não dizer algo que se encaixaria perfeitamente em uma comédia-pastelão. Todavia, até para tornar o ocorrido mais suave, eis que resolvi iniciá-lo como nas fábulas que vovó costumava me contar antes de dormir.
Era uma vez uma jovem, não tão princesa assim, chamada Salete, que vivia a sonhar com seu príncipe desencantado Ronaldo. E, numa segunda-feira, dentro do ônibus carregado de desesperança às 6h da manhã, eis que os olhares daqueles dois se cruzaram pela primeira vez. Bem, não foi amor à primeira vista, mas finjamos que tenha sido, mesmo porque este é um conto, não uma novela e, muito menos, um romance.
Ainda na fase de namoro, Salete confidenciou que desejava ser mãe assim que os laços estivessem bem-atados logo após as palavras do padre. E que, caso fosse menina, se chamaria Marina. O nome mais belo, que evoca beleza, tranquilidade e possui forte ligação com a natureza e o oceano. Isso sem contar que está associado a sensibilidade, intuição e carisma.
Já imaginou tudo isso reunido em um nome? Pois Salete não somente imaginou, como espalhou para todos os parentes e amigos. Afinal, a mulher acreditava que, caso todos pensassem positivamente, a sua primogênita seria uma linda garotinha chamada Marina.
Sem dinheiro para casar, Salete e Ronaldo foram adiando a cerimônia até que Neide, prima da mulher, embaraçada que estava com Fabrício, resolveu fazer os votos diante do padre. O problema é que os dois estavam com pressa por conta de atraso na menstruação. Entretanto, o que é contratempo para alguns, pode servir de empurrãozinho para outros.
— Neide, minha prima querida, bem que a gente poderia se casar no mesmo dia.
— O quê? E por que isso, Salete?
— Ih, mulher, é que o dinheiro do lado de cá tá mais curto do que coice de porco.
— E eu com isso?
— E a gente não é prima, não?
— Tá bom! Vou pensar e te falo.
— Mas não demore, que periga do seu bebê nascer na hora que o padre estiver casando você mais o Fabrício.
— Hum! Pois vamos marcar logo isso, que já tô ficando com gastura.
O casório duplo aconteceu duas semanas depois. E a felicidade reinou por alguns míseros meses nos respectivos lares dos mais novos casais da região de Sobradinho II, no Distrito Federal. Pois é, alegria de pobre dura pouco, ainda que seja estragada por meras bobices ou, dependendo do olhar de quem vê ou enxerga, coisa séria.
Não se sabe por que aconteceu, mas o fato é que a Neide resolveu colocar o nome da filha de Marina. Ih, pra quê? Antes tivessem jogado uma bomba atômica na bucólica cidade serrana.
Salete ficou possessa com a traição da prima. E agora? Como é que iria ser? Furiosa, não se conformava de ter sido roubada daquele jeito. E, para piorar a situação, acabara de descobrir que estava grávida. E se fosse menina? Precisaria escolher outro nome.
Ah, mas aquilo não ficaria assim mesmo! Resolvida a dizer umas poucas e boas para Neide, Salete saiu de casa com a língua afiada. Ronaldo até tentou dissuadi-la, mas não aguentou nem mesmo encarar a mulher, cujos olhos faiscavam.
Mal chegou ao pé da porta da casa da prima, Salete apertou com força a campainha. Neide não teve dúvida de quem era e, querendo resolver aquela pendenga de uma vez por todas, foi lá atendê-la.
— O que foi, Salete?
— O que foi? E você ainda tem coragem de me falar uma coisa dessas? Pois tu roubou o nome da minha filha!
— E agora nome tem dona, é?
— Claro que tem! Na família tem sim, senhora!
— Que bobagem, Salete!
— Bobagem? Pois desprimamos!
— O que você disse, mulher?
— Pois tu é surda, é? Des-pri-ma-mos!
A pendenga durou quase dois meses, até que o coração da Salete amoleceu que nem manteiga fora da geladeira. É que a Neide telefonou para a prima a fim de fazer um convite irrecusável.
— Salete, tu quer ser madrinha da Marina?
É óbvio que a mulher aceitou. As duas voltaram a ser primas novamente. Ah, e a Salete ganhou uma menina alguns meses após. Quer saber o nome? Você não imagina como esse povo de Sobradinho II é criativo: Aniram.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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