Pessoas feridas aprendem a caminhar com cautela. Quando encontramos alguém que oferece ajuda, acolhimento ou amizade, algo em nós acende um alerta silencioso. Nós desconfiamos. Não por maldade, mas por memória. O corpo lembra antes da razão. O instinto reconhece padrões que a consciência ainda tenta negar.
Mesmo assim, muitas vezes aceitamos. Aceitamos porque estamos cansadas. Porque precisamos de apoio. Porque ninguém atravessa a vida sozinha sem pagar um preço alto demais. Aceitamos porque queremos acreditar que agora é diferente, que aprendemos, que o passado não vai se repetir. Mas o instinto já havia avisado.
Freud dizia que o trauma retorna quando não é elaborado. Já a antropologia nos ensina que a experiência molda percepção: nós lemos o mundo a partir do que já vivemos. Quando algo “soa parecido”, não é paranoia é repertório. O problema é que, socialmente, fomos ensinadas a desconfiar mais de nós mesmas do que dos outros.
Há uma pedagogia cruel que empurra pessoas feridas para o risco repetido: a ideia de que negar ajuda é orgulho, de que desconfiar é ingratidão, de que colocar limites é frieza. Bell hooks já escreveu que mulheres são treinadas para aceitar migalhas afetivas como se fossem banquetes. E assim, muitas vezes, entramos de novo em relações que nos atravessam sem cuidado.
O instinto não falha. Ele apenas fala baixo depois de anos sendo silenciado. Quem falha é a cultura que nos ensina a ignorar sinais em nome da convivência, da empatia mal compreendida, da necessidade de não parecer “difícil”. Judith Butler nos lembra que vidas vulneráveis precisam de redes de cuidado, mas cuidado não é exploração emocional disfarçada de ajuda.
Quando nos machucamos novamente, a culpa costuma cair sobre nós: “por que confiamos?”, “por que aceitamos?”, “por que não ouvimos o instinto?”. Mas a pergunta mais honesta talvez seja outra: por que tivemos que aprender sozinhas a diferenciar apoio de interesse, acolhimento de invasão, amizade de oportunismo?
Nós precisamos parar de romantizar a repetição da dor como falha pessoal. Repetir não é burrice, é tentativa de sobreviver com as ferramentas que tínhamos naquele momento. O aprendizado vem depois. E ele dói. Dói perceber que o instinto estava certo, que os sinais estavam lá, que o corpo sabia.
Mas há algo importante nisso tudo: cada vez que caímos, aprendemos a levantar mais rápido. Cada vez que ignoramos menos o instinto. Cada vez que escolhemos melhor quem pode se aproximar. O instinto não falha, ele se fortalece quando finalmente passamos a ouvi-lo.
Se este texto alcançar alguém que se sente cansada de “errar nas pessoas”, deixamos um lembrete coletivo: não é fraqueza precisar de ajuda. Fraqueza é um sistema que se aproveita de quem está ferida. Ouvir o instinto não nos isola do mundo, nos protege para que possamos permanecer nele.
Aprender a confiar em nós mesmas talvez seja o maior cuidado que podemos construir depois da dor.
