Notibras

O intérprete de cantos

— É você a quem todos por aqui chamam de “o escritor”?

Sim, era ele. Mas se em outros tempos a alcunha lhe trazia orgulho e um certo ar de superioridade por ver seu talento reconhecido, agora a expressão o irritava. Podia ser coisa de sua cabeça, mas sentia um tom de deboche no apelido, já que fazia meses que não produzia uma linha sequer.

Nos últimos anos, alcançara enfim a notoriedade que sempre buscara. Recebera diversos prêmios literários por seus contos, crônicas e poemas, tinha livros publicados e assinava uma coluna quinzenal em uma revista de grande circulação, onde seus textos ganhavam destaque.

Mas tudo isso era passado, desde que sem nenhum aviso a inspiração que tão longe o levara começou a abandoná-lo. Seus textos foram perdendo a intensidade, os desfechos cada vez mais incoerentes, e as crítica cada vez mais implacáveis. Logo já não conseguia escrever uma única linha. Tirou licenças, férias e todas as folgas acumuladas, acreditando tratar se apenas de um bloqueio criativo passageiro. Nada mudou. Voltou revigorado, cheio de energia, mas sem uma única ideia que prestasse para preencher sequer um parágrafo.

Perdeu o contrato no periódico, foi deixado de lado pelos editores e caiu no esquecimento dos leitores, sendo esta última perda a que mais lhe doía na alma.

Estava absorto, pensando em seu infortúnio, quando a voz novamente o interpelou:

— E aí, cara? Tu é ou não “o escritor”?

Desperto de seus devaneios, respondeu enquanto se virava:

— Sim, sou eu! — Mas para sua surpresa, notou que o jardim estava vazio.

— Ora, podia jurar que ouvi alguém…

— Aqui em cima, idiota! Vocês humanos são todos umas bestas, não conseguem focar em nada que não esteja bem diante dos olhos.

Continuou sem enxergar ninguém. Tinha certeza de que estava sozinho, à exceção de um pequeno canário que o observava do alto de um galho fino de amoreira. — Cara, tu é meio lerdo, né?

Ao ouvir a última ofensa, percebeu, sem sombra de dúvidas, que a voz vinha do passarinho.

— Deus, o que é isso? O passarinho… ele …

— Vamos pular a parte do “bichos não falam”, tá? Saiba que, no reino animal, também ficamos pasmos ao ver como vocês se comunicam mal, mesmo tendo tantas habilidades fonéticas, tecnologia e ferramentas que nos faltam. Mas não estou aqui para falar de biologia, meu papo contigo é outro.

Ainda atônito com a situação esdrúxula, o homem perguntou ao interlocutor alado: — O que você quer de mim?

— Assim está melhor. Vamos direto ao ponto: todo mundo aqui sabe que tu não é mais escritor porra nenhuma, certo?

— E como você sabe disso?

— Eu ouço as coisas. As pessoas dizem: “coitadinho, era tão bom escritor”, ou “uma pena que não consiga mais escrever nada”.

— E o que você tem a ver com isso, seu pardalzinho enxerido?

— Pardal é o cacete! Sou um canário-da-terra. Se me ofender de novo, vou embora sem te propor o negócio vantajoso que me trouxe aqui!

— E o que “Vossa Excelência, o Senhor Canário-da-Terra”, teria a me oferecer? — respondeu o homem, agora entretido pela situação.

Ignorando o sarcasmo, o emplumado continuou:

— O negócio é o seguinte: ao contrário do que vocês, antropoides tacanhos, pensam, nós animais somos muito inteligentes. Só nos carecem algumas habilidades que, por uma piada de mau gosto da natureza, foram dadas a vocês.

— Como o polegar opositor, por exemplo?

— Vejo que não é tão burro quanto pensei! Continuando: entre as habilidades humanas que mais invejamos está a escrita. Embora não possamos escrever, somos excelentes contadores de histórias. Conhecemos muitas fábulas, mitos, contos, anedotas, lendas. Algumas dessas histórias têm milhares de anos e outras vêm de muito antes de a raça humana surgir e se espalhar pelo mundo como uma praga. São narrativas transmitidas de geração em geração, de espécie em espécie, de bioma em bioma, e posso garantir que são infinitamente melhores do que a maioria das porcarias que vocês, bípedes metidos a besta, insistem em publicar nesses livrecos.

— Gostaria de lembrá-lo, meu amigo, que você também é um bípede. Ou não são duas perninhas finas que vejo aí em cima, suportando o peso da sua arrogância?

— E você ainda se diz intelectual? Não leu “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell? Se tivesse lido, lembraria: “A asa de uma ave, camaradas, é um órgão de propulsão e não de manipulação. Deveria ser olhada mais como uma perna. O que distingue o Homem é a mão, o instrumento com que perpetra toda a sua maldade.” Portanto, nobre escritor, sou um quadrúpede.

Diante da perspicácia da ave, o escritor sorriu. Começava a sentir simpatia pelo pedante alado.

— Orwell ficou com a glória, mas quem contou a história para ele foi um pássaro — afirmou o canário.

— Está sugerindo que uma ave foi a autora da obra?

— Mas é claro! E é sobre isso que vim falar. Eu te conto nossas histórias, você as escreve e publica como quiser. Pode até adaptá-las para o mau gosto humano, não me importo. O material é de primeira, você voltará a fazer jus à alcunha de escritor e ninguém precisa saber da nossa parceria. Até porque ninguém acreditaria.

A ideia parecia uma loucura, mas considerando que até minutos atrás ele nem sabia que era possível conversar com uma ave, passou a refletir no que o seu novo amigo ofereceu. Se de fato o que ele dizia era verdade, então tinha nas mãos a chance de reestabelecer seu orgulho.

— E você? O que ganha com isso?

— Ora, vejo que o interesse despertou. Primeiro: você tem que dar um jeito na comida que colocam naqueles alimentadores. Nada de grãos velhos ou mofados. Quero ração de marca, nutritiva. E se puder arranjar uns insetos suculentos, agradeço, dá um trabalhão caçar esses sacanas e suja toda a minha plumagem.

— Certo, acho que consigo isso…

— Não acabei! Além disso, você terá que dar um jeito no gato. Já perdi dois amigos para as garras daquele diabo felino.

— Você quer que eu mate o gato?!

— Ei! Espera aí, quem aqui falou em “matar”? Violência é coisa da sua “raça civilizada”, eu preciso que você dê um jeito no gato, para que ele não fique rondando o jardim e nos caçando como um psicopata, o que você fará eu não sei e não me interessa.

O escritor passou a cumprir sua parte no acordo. Todos os dias, o passarinho aparecia e passava horas ditando-lhe inúmeras histórias, que ele registrava com diligência. A pilha de folhas crescia sem parar, dia após dia. As pessoas ao redor logo notaram a mudança. “Veja, o escritor voltou a escrever!”, cochichavam. “Olha como anda feliz, revigorado!” Outros arriscavam palpites: “Aposto que está trabalhando em um romance.”

*****

A mulher entrou na sala do médico, apreensiva. O doutor a cumprimentou e logo começou a atualizá-la:

— Como eu lhe disse há algum tempo, notamos uma melhora significativa no estado mental do seu pai. Ele desenvolveu novos interesses, como cuidar dos pássaros. Comprou as melhores rações do próprio bolso e, todos os dias, zelosamente, limpa os alimentadores e troca a água. Foi uma mudança perceptível para todos nós da Casa de Recuperação.

— Fico feliz, doutor. Mas por que me chamou com tanta pressa?

— Tudo ia bem — continuou o médico. — Ele parecia feliz, escrevendo com dedicação. Considerando que a impossibilidade de escrever foi o primeiro sintoma que apontou para a deterioração mental que o trouxera até aqui fora, chegamos a acreditar que ele recuperava suas faculdades mentais… até que coisas estranhas começaram a acontecer.

— Que tipo de coisas?

— Para começar, tentei descobrir o que ele tanto escrevia. Sabendo que seu pai era um escritor famoso, naturalmente fiquei curioso para saber o que estava produzindo, mas ele se tornou possessivo com os textos, não deixava ninguém se aproximar enquanto estivesse redigindo. Depois surgiram relatos trazidos por outros internos de que seu pai conversava com um passarinho.

Involuntariamente a mulher sorriu com um ar duvidoso. O médico também sorriu e continuou:

— Considerando o estado mental da maioria dos nossos pacientes, não dei muita importância a tais comentários e achei que fossem somente fofocas motivadas pelo ciúme da notoriedade que seu pai voltava a adquirir…, mas aí ocorreu o incidente com o gato — Disse essas últimas palavras com um tom que deixava transparecer sua preocupação.

— Mas que gato?

— Um felino que vivia nas áreas externas desapareceu. Surgiram rumores de que seu pai era o responsável pelo sumiço.

A mulher exclamou, alarmada:

— Como assim? Meu pai nunca faria mal a um animal!

— Calma. Nós encontramos o gato vivo, trancado em um antigo almoxarifado desativado. Pelas câmeras, vimos que foi seu pai quem o prendeu lá.

— Meu Deus, doutor! E ele disse por que fez tal barbaridade?

— Ele explicou que o gato andava caçando alguns dos passarinhos de que cuidava e, por isso, o trancou lá, lembrando-se de deixar comida e água de vez em quando. Então ficou claro para mim que a intenção do seu pai não era machucar o animal. Não foi a melhor decisão, claro, mas naquele momento nada acendeu um alerta mais sério. O verdadeiro problema, e o motivo de eu ter chamado você aqui, aconteceu esta manhã.

O médico se levantou, abriu um armário e buscou vários papéis, provavelmente o suficiente para formar quase uma resma.

— Essa manhã, uma de nossas funcionárias da limpeza encontrou alguns dos papéis que tanto o seu pai se dedicou escrevendo e imaginando trata-se de material a descartar, jogou-os no lixo. Quando seu pai percebeu, descontrolou-se, tentou agredi-la. Precisamos de três funcionários para contê-lo e tivemos que sedá-lo. Aproveitei a confusão para recolher os textos do quarto e… bem, veja por si mesma:

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— Mas doutor, não entendo…o que significam esses símbolos?

— Também não sei. Temo que não signifiquem nada. E são mais de 400 páginas repletas de símbolos parecidos, sem nenhum tipo de padrão observável. Lamento dizer, mas acho que os eventos que pensávamos ser o início da recuperação mental do seu pai, na verdade, indicavam o estágio final de sua deterioração intelectual.

Ficaram em silêncio. A mulher continha o choro, e o médico lamentava ter se deixado enganar pelo comportamento do escritor nas últimas semanas. O que ambos ignoravam era que aquelas folhas não continham rabiscos sem sentido, mas sim as mais belas histórias já narradas, escritas no único idioma possível para aquela parceria: a linguagem dos pássaros.

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