Após descerem do avião e já na área de desembarque, Paul e Robert, dois jornalistas mais do que colegas e amigos de longa data, observaram um trio ostentando um cartaz onde lia-se: “HARRY WILSON E GEORGE NIXON”.
Tomados por um espírito pândego muito próprio da essência de alma da dupla, trocaram olhares ladinos e, marotamente, concordaram em fazer uma brincadeira de gosto duvidoso.
Aproximarem-se do trio, dois homens e uma mulher, sugerindo assim que eram as pessoas mencionadas no imenso cartaz.
— Mestres Harry e George? perguntou a mulher.
Sorrindo, Paul respondeu:
— Quem mais? Prazer, sou o Harry!
— Muito prazer, estávamos ansiosos por conhecer vocês, falou um dos homens, visivelmente emocionado.
— O prazer é nosso, sou George, replicou Robert, apertando a mão dos desconhecidos.
— Podemos ir então, mestres? questionou o outro homem do trio.
Depois de novo olhar cúmplice entre a dupla, Paul obtemperou:
— Antes, se não se importarem, gostaríamos de tomar um café reanimador.
— A viagem foi longa e estamos precisando de um café bem quente, complementou, Robert.
Assim – imaginou a dupla de gaiatos – eles esperariam os verdadeiros Harry e George aparecerem e, depois, pediriam desculpas pelo “mal-entendido”.
Durante o café, demonstrando viva admiração, os três recepcionistas apresentaram-se aos recém-desembarcados:
— Eu sou Richard, coordenador-chefe da organização em New York, qualquer coisa que vocês precisarem podem pedir para mim ou para a Heidi.
— Jeff, assistente de Logística e motorista, também à disposição dos ilustres mestres.
— Sou Heidi, chefe geral da segurança. Encantada, mestres! apresentou-se a mulher.
Surpresos com tantas mesuras e deferências, Paul (Harry) e Robert (George) falavam e observavam insistentemente a área de desembarque, quando, para espanto (e deleite) de ambos, Heidi observou:
— Sei que os mestres nunca permitiram que ninguém publicasse fotos dos seus rostos e que também nunca deram entrevistas à mídia… sinceramente, eu não imaginava que vocês pudessem ser homens tão charmosos.
Passados vinte minutos de conversação sobre as condições do tempo na cidade e outras aleatoriedades, Richard falou:
— Bem, agora que vocês já acabaram o café, creio que devem estar ansiosos para chegar ao hotel.
— Ademais, as regras de segurança recomendam que vocês não fiquem expostos em público por muito tempo, acrescentou Heidi, carinhosamente.
— A limusine já está a postos, complementou, Jeff.
Quando Robert começou a esboçar o que seria um esclarecimento da situação, Paul interrompeu o parceiro:
— Está certo, amigos! Mas antes precisamos ir ao toalete. Vamos, George?
Afastando-se da mesa, a dupla confabulou:
— Harry, quer dizer, Paul, já é hora de terminarmos a brincadeira, não concordas?
— Calma, amigo, a coisa está divertida! Faremos isso no hotel, está bem?
— Sei não, não estamos indo longe demais?
—Tranquilo! No hotel, diremos que a nossa organização costuma usar codinomes e que nos confundimos com a situação.
— E se os verdadeiros Harry e George ligarem para eles?
— Ora, diremos a mesma coisa, que foi um mal-entendido.
— Está bem, mas se ninguém ligar, chegando no hotel, esclarecemos tudo.
Depois que a portentosa limusine começou a rodar, o trio de recepcionistas arriscou uma conversação mais intimista com os dois ilustres e admirados recepcionados:
— Mestres, depois da Bíblia, a última obra de vocês é o livro mais importante da História, eu não canso de ler e reler, elogiou Richard.
— Ah, obrigado, mas não chega a tanto, ponderou o suposto escritor-ideólogo.
— Concordo inteiramente com o Richard, mestres! “O jogo” é a luz que a nossa organização precisava: inteligência, precisão e estilo incomparáveis, derreteu-se Heidi.
— Nem tanto, senhorita, é apenas uma história sobre um jogo, tentou minimizar um hesitante “George”.
— Como assim? Vocês escreveram que o destino da humanidade depende do resultado desse jogo, objetou Richard.
— Ah, claro, é que nós gostamos de escrever por metáforas, tentou explicar “Harry”.
— Mal posso esperar para ouvir a palestra de vocês, falou Jeff, o discreto motorista-assistente de logística.
— Palestra? deixou escapar, “Harry”.
— Sim, a palestra de vocês hoje à noite! Todos da Turma devem estar ansiosos por isso, veio gente de todos os continentes para assistir e confraternizar com vocês, falou animadamente Heidi.
— Turma? De todos os continentes? Isso é ´serio? perguntou um cada vez mais atônito “George”.
— Ah, além de geniais, vocês são também muito modestos, elogiou Richard.
— A Agulha não poderia estar melhor servida de ideólogos, derreteu-se novamente Heidi.
— Ah, sim, a Agulha…exclamou Harry.
Nesse momento, um barulho ensurdecedor interrompeu a conversa no interior da limusine.
Imediatamente, Jeff parou o veículo e, agilmente, Richard e Heidi saltaram empunhando duas espantosas pistolas.
Após vasculharem atentamente o entorno, os agentes da Agulha tranquilizaram os “ideólogos” da organização:
— Gente, foi só um pneu que estourou, falou Heidi.
— Sem problemas, está tudo sob controle, acrescentou Richard.
Sentados no banco de trás, “Harry” e “George” suavam frio.
— Ainda bem, conseguiu articular “George”.
— Dessa escapamos, murmurou “Harry”.
Após Jeff e Richard trocarem o pneu avariado, a limusine seguiu o seu percurso.
— Que susto, comentou “George”.
— Nem me fale, concordou “Harry”.
— Fiquem tranquilos, mestres, eu faria qualquer coisa para proteger vocês, disse docemente Heidi, abrindo a blusa e deixando à mostra parte dos seus belos seios.
Embasbacados, Paul e Robert conservaram um silêncio repleto de pontos de interrogação.
— Amigos, preciso tomar meu remédio para pressão e acabei de lembrar que esqueci de trazê-lo, podemos parar em uma farmácia? disse Paul, ofegante.
— E eu preciso de uma aspirina, replicou Paul.
— Claro, mestres, logo à frente tem uma, respondeu Richard, com presteza.
Após a limusine estacionar, os “mestres” saíram do veículo e entraram na farmácia sob o olhar vigilante de Heidi, que também havia saltado do veículo. Atenta como um fiel cão de guarda, a chefe da segurança postou-se na porta do estabelecimento.
— Paul, isso está ficando perigoso, não é melhor cairmos fora logo?
— Está brincando, Robert? Essa história pode nos valer um prêmio Pulitzer. Vamos ficar firmes e ver no que vai dar.
— Sim, se sairmos vivos, né? Jogo, Turma, Agulha, seguranças armados… o que mais nos espera?
— Não é emocionante? Deixa rolar… e essa Heidi é muita gata!
— Verdade! E parece que ela gostou de nós!
Após a limusine retomar o seu percurso mais uma vez, Richard expôs a programação do evento aos dois “mestres” palestrantes:
— Chegaremos ao hotel às 18 horas, às 19 haverá uma reunião social para os convidados da Turma descontraírem e fazerem o primeiro contato com as meninas, às 21 começará a palestra de vocês e às 22 estarão todos liberados para a festa.
—Vocês dois também estão convidados para conhecerem as meninas, se assim quiserem… acrescento Heidi, um tanto reticente e contrariada.
— Meninas? Quais meninas? perguntou “Harry”.
— As modelos que vieram de vários países para entreterem os convidados da Turma que vão assistir à palestra dos mestres sobre a sua magnífica obra, “O jogo”, esclarece Richard.
-Hum, entendi… bem, acho que é melhor nós ficarmos descansando e nos preparando para a palestra, ponderou “George”. E essa festa depois das 22 horas… do que se trata exatamente?
— Há, há, há… como se os mestres não soubessem, riu, Jeff.
Paul e Robert novamente cruzaram olhares de perplexidade.
— Heidi, nós esquecemos de trazer exemplares de “O jogo”, será que vocês conseguem dois para a preparação da nossa palestra?
— Claro, mestres, assim que chegarmos ao hotel, vou providenciar e levo pessoalmente no quarto de vocês, aliás, acho ótimo que vocês não queiram ir à reuniãozinha das 19 horas, falou Heidi, satisfeita.
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O segundo capítulo (epílogo) do conto “O buraco da Agulha” sairá nesta terça (31).
J. Emiliano Cruz é autor da coletânea de contos A felicidade e os risíseis amores de todos nós.
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