Notibras

O NOVO SHOW DE TRUMAN

Sinceramente, eu não sei sobre o que escrever, por que tudo parece errado. Escrever sobre os ataques nucleares entre Estados Unidos e Irã parece descolado da realidade. Escrever sobre a menina que sofreu abuso por cinco garotos em Copacabana, parece querer ser militante. Escrever sobre a guerra comercial do petróleo parece, no mínimo, discrepante ou repetitivo. Escrever sobre as chuvas que acabaram com a minha cidade, Juiz de Fora, na última semana, parece mais do mesmo. Escrever sobre qualquer coisa se tornou desconfortável porque parece que o lugar, o momento, as pessoas estão todas erradas e fora da realidade que seria, ao meu ver, ter bons olhos para interpretar sem julgamento. Viramos nós julgadores do mundo em tempo real. Eu me sinto vivendo o Show de Truman — já digo que, se você não viu esse filme, não sei nem por onde começar a ter esse diálogo. Na história, Truman é assistido pelo mundo e é a fonte de entretenimento para milhares de pessoas que acompanham sua vida em tempo integral. Opinam, torcem e se sensibilizam por tudo que ele passa, mas com um pequeno detalhe: ele mesmo não sabe de nada. Truman é analisado, julgado e interpretado sem que ele mesmo saiba de nada, o que o faz ser 100% do tempo ele mesmo, em toda a sua naturalidade. Ele pode chorar, amar, comer, cagar, dormir, roncar, sem nenhum pudor, porque, para ele, é ele por ele mesmo. Sinto que o show de Truman recomeçou, mas agora nós somos assistidos.

Se você come bem — julgado; se você está ajudando a levantar a zona norte da cidade — julgado; se você parou de ajudar porque não tem emocional — julgado; se você precisa voltar ao trabalho — julgado; se você quer continuar ajudando, arrecadando água — julgado; julgado, julgado, julgado… o show de Truman assumiu seu papel, levou ao mundo o conhecimento do que fazemos o tempo todo e, junto dele, o direito adquirido de sermos julgados por tudo… Julgamos a nós, julgamos o outro, julgamos o modelo econômico, julgamos as esferas públicas, julgamos até mesmo o nosso próprio julgamento… e ainda nos perguntamos: de onde vem a culpa?

A culpa vem quando nos julgam, mas também quando julgamos, há um ciclo vicioso e inteiramente sedutor, pois quem julga adquire o ego inflado da superioridade. Mais um ciclo vicioso… e era por isso que eu não sabia o que e nem por que começar a escrever. Porque do lugar em que estou agora, sendo friamente analisada por mim mesma, eu também julgo enquanto escrevo, julgo aqueles que estão julgando e que, por vez, também irão me julgar. Viu? É inevitável não cair no golpe das análises, nos jogos maliciosos disfarçados de bondade de apenas “estou dando minha opinião”, sendo que ninguém a pediu e, por isso, não há um direito de falar que estamos fazendo o suficiente, o pouco ou o mínimo. Qual sua régua? Em Truman, a régua era a sua naturalidade, em não saber que estava sendo assistido. E a nossa? Estamos o tempo todo sendo analisados, julgados e, sim, preocupados com o outro — de forma boa ou não. E não venha me dizer que você não se importa.

Sim, você se importa, todos nós nos importamos, todos nós queremos ser aceitos. Senão, cada um viveria espalhado em sua ilha, mas viver em sociedade não é assim. Todos nós dependemos e queremos a opinião dos outros, mesmo que involuntariamente. Então, sim, o ajudar, o não ajudar, o querer, o não querer, o arrecadar, o não arrecadar, o saber sobre o mundo ou não saber, virou nosso espetáculo eterno. Aqui não culpo as redes sociais por isso, culpo a nós mesmo que não estamos sabendo o que fazer…

Mas evoluções se fazem assim, não é mesmo? O que sabemos hoje não veio do nada, tudo já foi também excessos.
Talvez, os excessos de ego agora seja coisa que ainda não sabemos ou não podemos controlar, assim como as chuvas que não controlamos, mas podemos aprender com elas a utilizar sua potência de força e devastação para utilização num bem comum, se conseguirmos entender que elas são naturais, mas nossa prevenção contra elas pode ser moldada por nós.

(N. da A.: O Show de Truman está disponível na Netflix.)

……..

Thalita Delgado (@tha_delgado): Jornalista, publicitária e empresária, que também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou em 2024 seu primeiro livro A vida se faz rindo e chorando pela Editora Autoria.

Sair da versão mobile