Em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa escreveu sobre o diabo, no meio do redemoinho. Engano do grande escritor: diabos vindos do inferno, com cheiro de enxofre, destilando maldade, são bem raros no Brasil; a grande maioria dos redemoinhos que se formam nas encruzilhadas de caminhos de terra abriga meros exus. E não os poderosos, os da pesada, mensageiros de caboclos e orixás. Não, exus chinfrins, adeptos de brincadeiras de mau gosto, não mais do que isso.
Um deles, talvez o mais triste e acabrunhado de todos, era o Exu Espiadô. Quando não baixava num terreiro de umbanda ou de candomblé, ele batia ponto numa encruzilhada de trilhas de terra e cascalho, perto de uma praia. Seu grande prazer era criar um redemoinho e fazer o vento levantar a saia das mulheres que passavam pelo local, mostrando a calcinha das vítimas. Espiadô adorava o jogo subsequente de expressões. O olhar furibundo do eventual acompanhante – pai, irmão, marido, noivo ou namorado – numa promessa silenciosa de cobrir de porrada os machos que haviam presenciado a cena e ousassem zombar ou, crime dos crimes, demonstrar desejo. Mas seu maior prazer era presenciar as transformações no rosto da mulher. De início, um misto de surpresa e vergonha; logo depois, a sugestão de um sorriso quase imperceptível e um tênue convite ao prazer, como se ela pensasse: “Sou gostosa, babem por mim, meus tarados adoráveis!”.
Saborear essa mescla sutil de emoções era o que fazia feliz o voyeur da Exulândia. Bundas acondicionadas em calçolas não o excitavam, ele havia visto zilhões em seus muitos séculos de vida. Mas acompanhar a transformação de moça envergonhada em fêmea provocante, ah, isso não tinha preço.
O exu suspirou e lembrou, com saudade, dos bons e velhos tempos do século XX, lá pelas décadas de 50 e 60, em que as adolescentes designavam a exibição acidental (ou nem tanto) de suas calcinhas recheadas de carne jovem ou de seios escondidos nos primeiros sutiãs, aqueles que não se esquece, com uma expressão quase inocente, “cineminha de graça”. Fazendo uma careta de desgosto, ele pensou nos termos contemporâneos, muito mais crus: ”pagar peitola” e “pagar pepeca”. O que significava remover a embalagem e exibir a coisa. Nesse caso, não havia espaço para acidentes provocados pelo vento do redemoinho, nem para uma mostra discreta e sedutora, e sim oferecimento ostensivo; o voyeurismo dava lugar ao exibicionismo curto e grosso; e simplesmente não havia jogo de emoções a ser degustado.
Para o Espiadô, a gota que fez entornar o copo caíra horas antes, naquela manhã, quando uma jovem atraente foi sozinha para a praia, vestindo um pareô. Quando ela passou perto de um grupo de homens de todas as idades, o exu gerou o redemoinho e o vento levantou o tecido fino. Por baixo, a mulher estava com um fio dental mínimo, menor que qualquer calcinha. Não houve mescla de emoções a saborear; ela deu um sorriso sensual, passou a língua pelo lábio inferior, provocadora, caprichou no rebolado e seguiu para a praia, levando à loucura os rapazes, homens e velhos que a devoravam com os olhos.
– É, não dá mais – falou desapontado o exu. Ele era um voyeur sofisticado, gostava de observar e provar emoções complexas. E a coisa estava cada vez mais crua e direta. – Só faltou aquela exibida perguntar aos machos de plantão, “Qual de vocês vai fazer coisinhas gostosas comigo?” –, disse a si mesmo, desconsolado. – Melhor eu deixar essa encruzilhada, onde fui tão feliz, e descolar outra.
O Espiadô voou sobre a cidade até encontrar um cruzamento maneiro, perto de um templo evangélico neopentecostal. Estabeleceu-se e descansou, porém achou mais prudente incorporar num burro e levar um papo reto com o pastor principal. Ele não se espantou com a presença do exu e nem tentou exorcizá-lo como se este fosse um demônio – pastores principais sabem das coisas. E chegaram a um acordo vantajoso para ambas as partes.
Nos cultos de exorcismo, junto à multidão de irmãos e irmãs que fingem receber “demônios do inferno”, há sempre um que incorpora de verdade o Exu Espiadô. Ele é intimado, em nome do Senhor Jesus, a revelar seu nome, finge resistir mas cede no final. Só que se apresenta como um diabo com um nome hebraico, afinal é isso que os irmãozinhos e irmãzinhas querem ver, a expulsão dos capetas. Nas raras ocasiões em que ele é relacionado aos exus de cultos afro-brasileiros, dá o nome de um da pesada, por exemplo, Exu Tranca Rua, Exu Morcego ou Exu Caveira, jamais o do pé-de-chinelo Exu Espiadô. Os crentes ficam impressionados, a cerimônia de exorcismo nunca foi tão dramática, o pagamento de dízimos aumentou adoidado.
Em contrapartida, quando não há culto, o exu voyeur tem autorização para brincar com as irmãzinhas, sem que algum desavisado tente mandá-lo para as profundas dos infernos. Ele não iria, claro, mas a coisa ia dar trabalho, encher o saco. Injustiça para com a sofrida categoria dos exus. As crentes atingidas na encruzilhada em geral atribuem ao demo o que acontece com elas. Contudo, para o prazer do Espiadô, os rostos delas expressam surpresa, vergonha e, em seguida, uma pitada de excitação. Além do mais, suas saias compridas sobem que é uma beleza!
