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O orgulho de não desistir

Sim, é cansativo abrir as redes sociais e ver todos os dias as mesmas postagens. É exaustivo falar de feminicídio, violência doméstica, estupro, misoginia e tantas outras formas de violência de gênero. Mas, se é cansativo para você, imagine para uma mãe que ouve o próprio filho falar das mulheres como se fossem bonecas expostas em uma prateleira de supermercado.

Quantas vezes ouvi uma mãe dizer: “Tenho vergonha do meu filho; ele fala das mulheres como se fossem objetos”.

Imagine sua filha ouvindo, diariamente, suas piadas machistas, seus relatos sobre com quantas mulheres você sai ou o quanto elas olham para você — reforçando o “direito” que você acredita ter de sair com quem quiser e deixar clara a diferença: “eu sou homem”. Isso é vergonhoso para essa menina. Diz a ela o que deve aceitar em um relacionamento adulto: mentiras, manipulações, traições e, por fim, a violência. Afinal de contas, ela é “apenas” uma mulher.

Imagine sua esposa ou namorada que, em vez de um “eu te amo”, ouve diariamente piadas machistas e precisa se defender de tentativas de controle e da sua necessidade de aprovação através da diminuição de outras mulheres.

“Ah, mas é só uma brincadeira.”

Se, como adulto, você não entende que aquilo que fere e causa sofrimento não é brincadeira, qual é a sua posição como homem, filho, companheiro ou pai? Se você não é capaz de se preocupar com a dor que causa às mulheres à sua volta, que tipo de homem você é?

Aos quatorze anos, enquanto todos faziam administração, eu queria cursar edificações. Foi um ano difícil, marcado por greves e estudos perdidos. Decidi trabalhar. Minha família passava por dificuldades, então o primeiro passo foi procurar emprego escondida do meu pai.

Assim fiz. Tinha acabado de completar quinze anos quando consegui um trabalho sozinha. Um adulto precisava assinar a autorização; minha mãe assinou, ainda escondida, mas chegou o momento em que ele precisava saber. Eu já namorava há seis meses. Minha mãe, angustiada, esperou até o limite. Eu deixei claro que iria trabalhar de qualquer jeito.

Finalmente, ela contou ao meu pai em um momento em que ele estava tranquilo. Ele aceitou, mas impôs:

— Ela tem que pedir ao namorado; ele pode não gostar e ela tem que obedecer a ele.

O ódio tomou conta de mim. Eu tinha apenas quinze anos e meu pai estava autorizando um garoto de dezoito a tomar decisões por mim. Não pedi permissão; saí e fui trabalhar. Meu namorado realmente não gostou e passou dias chateado. Eu deveria ter terminado ali, mas meu pai dizia que a mulher deve se casar com o primeiro homem de sua vida.

Eu não queria parar de estudar. Na época, eu precisava de uma autorização de um juiz da Vara da Infância e da Juventude para estudar no período noturno. Meu pai e meu namorado jamais me acompanhariam. Busquei as informações e fui sozinha, aos quinze anos, dizer a um juiz que eu queria continuar meus estudos.

Com o pedido na mão, o juiz me olhou e disse:

— Você é uma menina muito bonita e jovem. O que precisa aprender é a cuidar da casa e arrumar um marido, em vez de arrumar problemas estudando — e, principalmente, estudando à noite.

Ele estendeu a mão e me entregou a folha com o “não autorizado”. Caminhei até a saída sentindo-me impotente, mas jamais me daria por vencida. Rasguei a folha e a joguei no lixo, diante dos olhos dele.

Mais tarde, veio o divórcio. Todo aquele transtorno e, claro, eu era o “problema”. Fui levada a um padre e a um psicólogo, que disse ao meu marido:

— Ou ela está com depressão, ou está te traindo.

Essas eram as únicas razões aceitáveis para um divórcio naquela visão.

Tive em minha vida mulheres que me ensinaram que posso ser o que eu quiser; silenciosamente, elas me apresentaram a liberdade. Tive homens que me ensinaram o que a sociedade espera da mulher.

Tenho, sim, muito a comemorar neste Dia Internacional da Mulher. No entanto, pouco posso atribuir aos homens que disseram me amar. Se você, como homem, acha cansativo falar da violência, imagine para nós, que a vivemos. Como homem, o quanto você tem contribuído para essa violência sendo pai, filho ou companheiro?

Como mulher, você pode se orgulhar de suas conquistas por não desistir diante de uma sociedade que tenta nos condicionar a servir aos homens. Hoje, podemos comemorar.

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“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”

Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.

Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES

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