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O perigo de tratar golpismo como divergência ideológica

Naturalizaram a candidatura de Flávio Bolsonaro. Como se fosse apenas mais um nome na disputa. Como se estivéssemos diante de um processo político ordinário, dentro da normalidade democrática. Não é.

Não se trata de uma candidatura qualquer. Trata-se de um projeto que representa alguém que está preso por tentativa de golpe de Estado. Isso, por si só, deveria provocar reflexão profunda na sociedade. Democracia não é detalhe; é fundamento. E qualquer iniciativa que orbite em torno de quem atentou contra ela precisa ser analisada com rigor histórico e político, não com indiferença.

Flávio Bolsonaro nunca foi um ator político autônomo. Suas decisões, discursos e movimentos sempre estiveram alinhados ao aval de Jair Bolsonaro. Na prática, sua eventual candidatura não seria apenas uma disputa eleitoral: seria a continuidade simbólica e estratégica de um grupo político que flertou abertamente com a ruptura institucional. É como se o golpismo, mesmo após responsabilizado, ainda buscasse manter influência ativa sobre a sociedade por meio de representantes formais.

É preciso compreender que a democracia não se defende apenas com decisões judiciais. Não basta prender o golpista. É necessário enfrentar a cultura política que normaliza ataques às instituições, que relativiza a violência institucional e que transforma tentativas de ruptura em meras divergências ideológicas.

A história mostra que democracias não caem apenas por tanques nas ruas, mas também por meio da banalização do inaceitável. Quando se naturaliza o extremismo, quando se aceita como trivial o que deveria ser exceção gravíssima, abre-se espaço para que o passado retorne com nova roupagem.

Defender a democracia exige vigilância contínua, memória ativa e compromisso coletivo. Não se trata de perseguir adversários políticos. Trata-se de proteger as regras do jogo.

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