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O peso do trânsito negreiro e nosso racismo estrutural

A história do Brasil é indissociável do maior movimento migratório forçado da história da humanidade. Entre os séculos XVI e XIX, o país foi o destino de aproximadamente 4,8 a 5,8 milhões de africanos escravizados, consolidando-se como a nação que mais recebeu cativos em todas as Américas. Essa travessia, realizada nos porões infectos dos “Tumbeiros”, deixou um rastro de morte que estima-se ter vitimado entre 600 mil a 1 milhão de pessoas antes mesmo de avistarem a costa brasileira.

Nos navios negreiros, a vida humana era reduzida a uma métrica de lucro e espaço. Os cativos eram amontoados em vãos que raramente excediam 50 centímetros de altura, impedindo-os de sequer sentar-se eretos. A falta de higiene e a ventilação precária transformavam os porões em incubadoras de doenças como a varíola, o escorbuto e a disenteria, conhecida à época como “fluxo de sangue”. A taxa de mortalidade nessas viagens chegava a 25% nos períodos coloniais, sendo o descarte de corpos no mar uma prática cotidiana.

Além das patologias físicas, o “banzo” — um estado de depressão profunda causado pela perda da liberdade e da identidade — era uma causa frequente de óbitos. Muitos africanos optavam pelo suicídio, lançando-se ao mar ou recusando alimentação, em um ato final de resistência contra a objetificação de seus corpos. Aqueles que sobreviviam ao oceano desembarcavam em portos como o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, onde o trauma da travessia era apenas o prelúdio de séculos de exploração.

A abolição da escravidão em 1888, embora tardia, não veio acompanhada de políticas de reparação ou integração. Pelo contrário, o Estado brasileiro negligenciou os ex-escravizados, empurrando-os para a marginalidade e para a ocupação de áreas periféricas, o que deu início ao processo de favelização. Essa exclusão deliberada é a gênese do que sociólogos chamam de racismo estrutural, onde as instituições são moldadas para manter privilégios de um grupo em detrimento de outro.

Durante grande parte do século XX, o Brasil sustentou o mito da “democracia racial”, uma narrativa que sugeria que a miscigenação havia eliminado o preconceito. Essa ideia serviu como uma cortina de fumaça, dificultando o combate ao racismo ao negar sua existência. Ao contrário da segregação explícita vista nos Estados Unidos ou na África do Sul, o racismo brasileiro consolidou-se de forma velada, manifestando-se em barreiras invisíveis no mercado de trabalho e no sistema de justiça.

Atualmente, os dados do IBGE revelam que o abismo racial persiste: o rendimento médio mensal de pessoas brancas chega a ser 64,2% superior ao de pretos e pardos. Essa disparidade não é fruto da falta de esforço individual, mas de um sistema que restringe o acesso a redes de contato, educação de elite e cargos de liderança para a população negra, perpetuando um ciclo de pobreza que remete ao período colonial.

No âmbito da segurança pública, o viés racial é alarmante. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, jovens negros são as principais vítimas de mortes violentas e intervenções policiais. A persistência de estereótipos que associam a cor da pele à criminalidade é um reflexo direto de uma sociedade que nunca processou plenamente o seu passado escravocrata e as hierarquias que ele estabeleceu.

Como tentativa de corrigir essas distorções históricas, as Leis de Cotas (como a Lei 12.711/2012) surgiram como mecanismos de ação afirmativa. Elas buscam garantir que a diversidade da população brasileira esteja refletida nas universidades públicas e no serviço federal. Embora polêmicas para alguns setores, as cotas têm sido fundamentais para criar uma nova classe intelectual negra e reduzir a desigualdade de oportunidades acumulada por gerações.

Apesar dos avanços na educação, a representatividade política ainda caminha a passos lentos. Embora pretos e pardos formem a maioria da população brasileira (cerca de 56%), eles ainda ocupam uma fração minoritária nas cadeiras do Congresso Nacional e em cargos de chefia no Executivo. A barreira financeira e a estrutura dos partidos políticos muitas vezes favorecem a manutenção de elites tradicionais, dificultando a ascensão de lideranças negras.

O racismo no Brasil também se manifesta de forma geográfica através da segregação espacial. As periferias, frequentemente privadas de saneamento básico, transporte de qualidade e segurança pública, são habitadas majoritariamente por negros. Essa “geografia do racismo” mantém a população negra distante dos centros de poder e desenvolvimento econômico, reforçando o isolamento social e econômico herdado da era imperial.

A representação midiática e cultural tem sido outro campo de batalha. Por décadas, pessoas negras foram relegadas a papéis subalternos ou caricatos na televisão e no cinema. Recentemente, movimentos de afirmação estética e cultural têm combatido esses estereótipos, mas a luta por uma narrativa própria, onde o negro é protagonista de sua história e não apenas um acessório da trama branca, ainda enfrenta resistências estruturais.

O sistema de justiça também reflete essa desigualdade. Estudos indicam que, em casos semelhantes de posse de substâncias ilícitas, pessoas negras têm mais chances de serem fichadas como traficantes, enquanto pessoas brancas são mais frequentemente enquadradas como usuários. Essa disparidade no tratamento jurídico alimenta o encarceramento em massa da população negra, uma forma moderna de controle social.

O enfrentamento ao racismo no Brasil hoje exige mais do que apenas a condenação moral de atos individuais; requer uma revisão profunda das leis, da economia e do sistema educacional. O reconhecimento de que o Brasil foi construído sob o sangue e o suor de milhões de africanos é o primeiro passo para que a reparação histórica deixe de ser uma teoria acadêmica e se torne uma política de estado efetiva.

A persistência do preconceito mostra que a abolição de 1888 foi um processo inconcluso. A verdadeira libertação só ocorrerá quando a cor da pele deixar de ser um determinante para a expectativa de vida, o nível de renda ou o tratamento recebido pelas autoridades. A história dos navios negreiros não é apenas um capítulo do passado, mas uma ferida aberta que molda o presente e exige justiça.

Em suma, entender o racismo no Brasil hoje é compreender que ele é o resultado de uma escolha política de esquecimento. Somente ao confrontar os fantasmas do “Tumbeiro” e os privilégios herdados da colonização será possível construir uma democracia que seja, de fato, para todos os brasileiros, independentemente de sua ascendência.

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