Notibras

O PRESENTE DE HOJE É O PASSADO DO AMANHÃ…

Cachorrinho está latindo
Lá no fundo do quintal
Cala a boca, cachorrinho,
Deixa meu benzinho entrar
Meu potinho de melado
Meu docinho de cará
Quem quiser comer comigo
Fecha a porta e venha cá…
(Autor desconhecido)

Em mil novecentos e antigamente, como se costuma falar, os quintais eram grandes, as casas não tinham cercas, quanto mais muros… os bairros lembravam os arruados das fazendas do interior. Na verdade, com exceção de poucas ruas nos grandes centros, o mundo era um grande sertão. Até meados dos anos setenta do século passado era comum o manejo de gado, sendo conduzido normalmente pelas ruas de terra batida, levantando poeira por onde passava. As charretes eram numerosas, fazendo a vez de transporte para quase tudo o que precisasse… os comerciantes lançavam mão desse meio de transporte para chegar até seus clientes. E tinham sua clientela formada pelos vários bairros pelos quais passavam…

As pessoas se conheciam por apelidos. Claro, sabiam o nome umas das outras, mas dificilmente se dirigiam umas às outras por ele… era mais fácil usar os apelidos ou, como de praxe, chamar de “compadre” ou “comadre”… a maioria das pessoas professava a Igreja Católica e seguiam seus ritos ao pé da letra… adaptados ao seu jeito de viver. Crendices populares eram comuns, e as pessoas realmente acreditavam nas histórias de assombração contadas sob a luz da lamparina, ou do lampião à querosene… sim, a luz elétrica ainda era um luxo que não havia chegado a todos os cantos da cidade, como nos dias de hoje…

Como a maioria das pessoas tinham migrado de fazendas onde estavam acostumadas a plantar seu próprio alimento, os terrenos transformavam-se em hortas e pomares. A criação de galinhas e, dependendo do tamanho dos quintais, porcos, era algo comum então. Era raro encontrar uma casa que não contasse com um galinheiro. Se a pessoa morasse próxima de um riacho ou lago, até mesmo patos faziam parte de sua criação. Eram mini fazendas, se olharmos por esse ângulo…

Árvores frutíferas, legumes e verduras faziam parte da plantação. Geralmente, na frente da casa, havia um jardim. Uma floresta de flores, na verdade. A profusão de cores e perfumes tornava a visão algo esplêndido, um espetáculo indescritível… para chegar até a porta da residência, era necessário atravessar aquela floresta perfumada. Quando o vento que prenunciava a chuva se avizinhava, o cheiro bom da folhagem das árvores dominava todo o espaço…

A liberdade das crianças era algo sagrado. Podiam brincar sem medo no meio da rua. Não havia movimento de veículos, exceto o carroceiro que passava de vez em quando pelas vilas para vender peixe ou outro tipo de alimento… asfalto era algo que não existia. A comodidade moderna se resumia em casas de alvenaria e, para os mais abastados, cerâmica no piso dos cômodos… alguns tinha até um alpendre…

As escolas ficavam no centro de cada bairro, e não havia condução até as mesmas. As crianças se deslocavam a pé, com chuva ou com sol. Reuniam um pequeno grupo e caminhavam em direção ao templo do saber. Todos devidamente uniformizados. Meninos com calças azul marinho (curtas e geralmente com suspensórios), camisa branca e gravata, onde eram colocadas pequenas faixas que identificavam a série que os mesmos estavam estudando. As meninas usavam saia plissada, blusa branca e a mesma gravata. Não havia classes mistas. Meninas estudavam com meninas, meninos com meninos. Só se encontravam na hora do recreio. E, claro, durante o percurso de casa para a escola e vice-versa…

Essa separação por sexo na escola não impedia a garotada de brincar todos juntos, meninos e meninas. Quando se reuniam, brincadeiras como pega-pega, esconde-esconde, roda-roda eram comuns. Meninos e meninas se davam as mãos, fazendo uma grande roda e cantavam as cantigas que suas mães haviam lhes ensinado. Também brincavam de queimada, é claro. Até mesmo de “casinha” todos se reuniam para brincar, reproduzindo aquilo que viam em seu seio familiar. Claro, não exatamente tudo…

Sim, era uma época boa. Não vou dizer que era melhor que os dias de hoje. Afinal, a geração atual também se recordará de sua infância com um filtro todo especial, sentindo esse temos que vivemos como algo simplesmente fantástico. É assim que nós, que pertencemos a uma geração passada, percebemos o tempo que passou… uma vida mágica, onde tudo era mais belo… em nossa visão…

O que posso dizer? Espero que as crianças de hoje tenham uma infância tão feliz quanto a que nós tivemos o privilégio de viver. E quando chegar a vez de elas recordarem seu passado, que apenas boas recordações aflorem em suas mentes…

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