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O que não volta, mas ainda pulsa

Hoje, nós não voltaríamos. Não por orgulho, mas por lucidez. Há caminhos que a consciência fecha de uma vez por todas, mesmo quando o afeto insiste em bater à porta como memória. O corpo lembra, mas a razão aprende.

Ainda assim, há uma verdade incômoda que não fingimos não saber: nós faríamos qualquer coisa não para reviver o passado, mas para sentir de novo. Não por aquela pessoa, mas pela intensidade que fomos capazes de sustentar quando amamos sem reservas. O desejo não é o retorno; é a experiência.

Nós descobrimos tarde que nem todo amor merece continuidade, mas alguns merecem luto. E o luto não é só pela pessoa que se foi; é pela versão de nós que existiu ali inteira, aberta, vulnerável, imprudente talvez, mas viva. Há afetos que não pedem repetição; pedem reconhecimento.

A maturidade não nos torna frias. Ela nos torna criteriosas. Nós aprendemos a não confundir intensidade com destino, nem entrega com permanência. O que ficou não é convite, é arquivo. E arquivo também dói quando aberto.

Heidegger diria que somos seres no tempo, lançadas para frente, mesmo quando o passado insiste em nos chamar pelo nome. Amar, nesse sentido, não é negar o que passou, mas assumir que certas experiências nos atravessam e não se repetem. Elas nos formam, não nos prendem.

Nós não voltaríamos porque hoje sabemos o custo. Mas nós ainda honramos a capacidade de sentir daquele jeito porque ela prova que não endurecemos. Que a dor não nos secou. Que seguimos capazes de intensidade sem ingenuidade.

Talvez o que buscamos não seja alguém específico, mas a possibilidade de amar sem medo de existir. Se isso vier de novo, que venha com cuidado, reciprocidade e verdade. Se não vier, que ao menos não nos roube a coragem que um dia tivemos.

Nós seguimos. Não em direção ao que foi, mas ao que ainda pode ser sentido sem que precisemos nos perder para isso.

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