Notibras

O que vale é a história, seja dinossauro ou mosqueteiro

O garçom ainda ajeitava as cadeiras quando cheguei, como quase sempre, primeiro. Não por pontualidade, que nunca foi meu forte, mas por ansiedade. Olhei em direção ao Lago, puxei o celular do bolso e murmurei, meio para mim mesmo, meio para a paisagem.

Brasília, concluí, muda, mas esse espelho d’água insiste em lembrar quem fomos.

— Lá vem o poeta — disse uma voz atrás, já rindo antes de terminar a frase.

Era Airton Maia, chegando com passos firmes, o mesmo sorriso de quem já fechou edição em madrugada sem café. Abriu os braços.

— Seabrinha, você ainda conversa com o horizonte ou já virou colunista das nuvens?

— Converso com quem me escuta, respondi. — E nuvem, meu caro, sempre escuta melhor que editor.

Sentamo-nos. Antes do primeiro gole, Airton já disparava:

— Você sabe quantos anos nós três somamos?, indagou, referindo-se a nós dois e a um terceiro, ainda presença oculta, que atrasara, para variar.

— Se for contar pelas pautas perdidas, dá uma eternidade, devolvi.

— Duzentos e cinquenta, cravou Airton, sério, como quem dá manchete. — Pelo menos na minha versão.

— Armando vai dizer que são só duzentos, respondi. — Ele sempre economiza até nos anos.

Como se tivesse sido chamado por senha secreta, Armando Cardoso surgiu, discreto, ajeitando os óculos presos à sua  blusa vermelha, prendendo a respiração para esconder o ‘tanquinho’ e observando tudo antes de falar. O indecifrável. O homem das engrenagens invisíveis.

— Vocês estão exagerando de novo?, perguntou, puxando a cadeira. — Se somar só os anos bons, não passa de cento e oitenta.

— Olha aí, riu Airton. — O homem que mantém a máquina funcionando também tenta reduzir a quilometragem.

Brindamos. Não ao passado, mas ao encontro raro. Esses encontros que não precisam de pauta, só de tempo, artigo que sentimos cada vez mais escasso.

— Sabe o que é engraçado?, ponderei. — A gente se fala toda semana, às vezes todo dia. Mas quando senta junto, parece reunião de redação antiga.

— Falta só alguém gritar “fecha!”, completou Airton.

— Ou cair o sistema, disse Armando, sério. Depois, sorriu. — Mas aí sou eu que resolvo.

Rimos como quem ri de si mesmo. O Lago Paranoá, à nossa frente, a tudo assistia.

— Vocês já repararam — continuou Airton —, que a moçada chama a gente de mosqueteiros?

— Desde que não seja “dinossauros”, estou satisfeito, respondi.

— Mosqueteiros em atividade, corrigiu Armando. — Isso muda tudo.

— Três por um, eu disse, lembrando Dumas ao avesso. — Um por todos: a notícia.

O assunto correu solto, feito texto sem limite de caracteres. Falamos de redações que não existem mais, de telefones que tocavam sem parar, de fontes que hoje dão entrevista por áudio de trinta segundos.

— E mesmo assim, pontuou Armando, mexendo no copo, ainda tem muita coisa fora do lugar. Muita engrenagem rangendo.

— É por isso que eu inventei de ser meu próprio patrão, comentei. “Pra poder errar no meu tempo”.

— E eu me reinvento todo dia, enfatizou Airton. — Se parar, viro nota de rodapé.

— E eu fico aqui, concluiu Armando, “tentando evitar que tudo desmonte enquanto vocês filosofam”.

Houve um silêncio curto, desses que não constrangem. O vento passou, alguém riu em outra mesa, Brasília seguiu.

— A gente não vai parar, né?, perguntou Airton, mais afirmando que perguntando.

— Parar é não ver a banda passar, respondi, como se fosse título de chamada de capa.

— Então vamos trabalhar mais, propôs Armando. — Com esperança renovada. Mesmo que o deadline seja amanhã cedo.

Brindamos de novo. Não por insistência, mas por convicção. Porque quem ama o que faz não se aposenta da curiosidade. E nós três, somando duzentos, duzentos e cinquenta ou apenas os anos que importam, ainda temos muita história para contar — e muita notícia para perseguir, como nos velhos tempos que, ali mesmo, mostravam que continuamos vivos.

Faltou, claro, citar o d’Artagnan. É Eduardo Martínez, o cronista Número 1 de Notibras. Chegou quando nos despedíamos. E como não somos do tempo das selfies, não apareceu na imagem. Clicou, mandou pelo WhatsApp e caminhou em direção ao seu carro. Se ele entrasse na soma das idades, sua cota corresponderia a algo pouco superior a 50.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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