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O silêncio de quem não pode apoiar

Algumas pessoas não podem nos apoiar em público porque isso entraria em conflito direto com aquilo que dizem sobre nós em particular. Essa contradição não é apenas moral; é estrutural. Ela revela um modo de relação baseado menos na verdade e mais na conveniência.

O apoio público exige coerência. Exige assumir posição, sustentar palavras diante de testemunhas, abrir mão do conforto de agradar a todos. Já o discurso privado permite ambiguidade: elogios ditos em voz baixa, solidariedades envergonhadas, concordâncias que não se sustentam à luz do dia. Hannah Arendt já alertava que a ética só se realiza plenamente no espaço público é ali que a palavra ganha responsabilidade.

Quando alguém nos valida no privado, mas silencia em público, não está apenas sendo cauteloso. Está protegendo uma narrativa que construiu sobre nós para outros. Apoiar publicamente significaria desmentir versões, rever alianças, admitir incoerências. E isso tem custo social. Por isso, o silêncio costuma ser escolhido como estratégia.

Esse mecanismo é comum em ambientes acadêmicos, profissionais e afetivos. Michel Foucault mostraria que o poder não se exerce apenas pela repressão explícita, mas pela gestão do discurso: quem pode falar, quando pode falar e a quem se deve calar. O silêncio, nesse sentido, não é ausência de posicionamento; é posicionamento calculado.

Para quem está do outro lado, o efeito é devastador. O apoio privado cria a ilusão de pertencimento; a ausência pública produz isolamento. A mensagem implícita é clara: você pode existir, desde que não me comprometa. Zygmunt Bauman diria que essa é a ética das relações líquidas vínculos que se mantêm apenas enquanto não exigem risco.

Reconhecer isso é doloroso, mas libertador. Nem todo silêncio é neutralidade. Nem toda concordância privada é lealdade. Apoiar de verdade é sustentar a palavra quando ela pode custar algo.

E quando alguém não pode nos apoiar em público, talvez o problema nunca tenha sido a nossa posição, mas o preço que essa pessoa não está disposta a pagar pela própria coerência.

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