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O VAGA-LUME DIVINO

1.
Era o ano de 1952. O Circo chegara em Ibiúna, pequena cidade próxima à capital, São Paulo.

Há quase um ano fora do rádio e ainda iniciante no ofício de artistas circenses, Mário/Motinha e Nair/Nhá Fia buscavam no interior paulista o ar puro de que meu mano, Marinho, tanto necessitava. Aquele primeiro ano de vida representara para eles o maior desafio de suas jovens vidas.

O mano padecia de uma doença terrível -talvez malthusimioto- que o impedia de aceitar qualquer tipo de alimento, nem ao menos o leite materno tão escasso no peito de nossa mãe.

Resultado: o menino estava morrendo de inanição. Desenganado pelos melhores médicos da capital, a solução foi comprar um pequeno circo-teatro mambembe na periferia da Grande São Paulo, de propriedade da família Vieira, e partir para o enfrentamento da nova vida perambulando pelo interior. Deixaram o programa Na serra da Mantiqueira, na rádio Bandeirantes, e com ele a fama, o dinheiro e foram lutar pelo futuro de meu mano. Não sem antes o levarem no colo e entregá-lo aos pés de Nossa Senhora Aparecida, na igreja antiga da cidade sagrada do Vale do Paraíba.

E assim foi.

2.
Desde a chegada do caminhão com o circo desmontado que aquele rapaz lhes chamou a atenção. Magrelo, nariz pontiagudo, cabelos desgrenhados, calça suja com a braguilha sempre aberta, chinelos baratos e camisa indefectivelmente abotoada em casas trocadas. Pediu se poderia ajudar a descarregar o caminhão. Chovia muito.

O pai aceitou com agrado a iniciativa. Durante todo o dia o rapaz tentou de todas as formas dar o melhor de si. Apenas não tinha experiência. Na verdade, era um desastre ambulante. Logo na descida da primeira mala pesada záz! Raspou dolorosamente o nariz.

E lá foi nossa “mãe/enfermeira”, com a malinha de primeiros socorros, dar um jeito no rapaz da cidade. O primeiro curativo foi uma espécie de batismo.

Mais tarde saberíamos que a bondade espontânea, incondicional é mesmo a cura para todas as dores, todas as chagas e o cimento que une as verdadeiras relações humanas.

Enfim, final da armação.

A chuva parou, a noite trouxe as estrelas e uma brisa gostosa amenizando o calor daquela região. O pai chamou o rapaz e lhe deu algum dinheiro como pagamento pelo trabalho. Ele não aceitou, mas o pai insistiu e ele cedeu. Nossa mãe fez um prato reforçado de comida que ele devorou como a um boi inteiro. Depois se foi sem ao menos dizer o seu nome ou detalhes de sua vida ali naquela cidade perdida no interior paulista.

3.
Era sábado, estréia da companhia em noite de gala. O espetáculo dividido em três partes: primeiro o picadeiro, com os tradicionais números circenses (palhaços, equilibristas, acrobatas e trapézio); depois a peça teatral (o drama em quatro atos O céu uniu dois corações); e fechando a noite com chave-de-ouro, o grande show radiofônico comandando por Motinha e Nhá Fia, os parceiros da alegria.

Por volta das 19 horas, o pai foi, como de costume, ao portão de entrada do circo recebia o público. A chegada do circo naquelas pequenas cidades do interior paulista era um acontecimento social. Sem cinema, sem televisão, apenas o rádio comandava as comunicações de massa e aproveitando o fato de ali estarem Motinha e Nhá Fia, pela primeira vez -até então artistas famosos da rádio Bandeirantes de São Paulo- prometia casa cheia.

Logo que chegou ao portão do circo, o pai percebeu várias crianças em alvoroço. Brincavam de atirar pedrinhas e lixo sobre o homem sentado, meio zonzo e todo mijado. Era o rapaz desajeitado do dia anterior. Completamente alcoolizado, desferia murros ao vento e parecia não saber onde estava. O pai chamou um empregado – “peludo/amarra cachorro”, na linguagem circense- e mandou retirar aquela criatura para os fundos do pavilhão. A noite prosseguiu e tudo aconteceu dentro do esperado: casa cheia, sucesso, dinheiro no bordereau e a cidade conquistada já no primeiro espetáculo.

4.
Na manhã seguinte, a mãe perguntou com preocupação ao pai:

— Será que ele tá morto, Mário?

— Olha Fia, só se morreu afogado na cachaça! Respondeu o pai sem perder a chance de uma nova piada.

— Maldade, Mário! O rapaz pode não estar bem. Dá a mangueira aqui que eu vou dar um banho nele de roupa e tudo! Disse, decidida, a mãe.

Após vários jatos d’agua, o rapaz voltou à vida.

Sem nada falar, levantou-se e ameaçou correr, como se fugindo de alguma coisa.

Foi então que nosso pai abriu as negociações.

O rapaz vivia na cidade desde pequeno e praticamente não tinha família. Segundo ele, chamava-se Adivino, Adivino Mariano.

Daquele dia em diante passou a ser o DIVINO, e foi guindado ao cargo de peludo/amarra cachorro especial de nossa família, pois, com o Marinho doentinho, nossa mãe necessitava de ajuda extra. E assim foi.

Divino levava o mano -com menos de um ano- antes do sol nascer para respirar o ar do campo. Mas nada do menino melhorar. Até que um dia, durante uma dessas andanças ao lado do tio Salim -sócio de papai no circo- o destino esperava com sua teia de soluções.

Ao passarem pela frente de uma pequena casa na periferia da cidade, depararam com uma negra, imensa, sentada na varanda amamentando um bebê. Tiveram a luz de solicitar a possibilidade de o mano tentar uma mamada. Não deu outra. Na mosca. Marinho agarrou a teta da negra senhora e quase morreu de tanto leite que mamou. Era a salvação.

Até hoje, acreditamos que foi obra de Nossa Senhora Aparecida. E porque não? Os mistérios da vida são tantos e infinitos e nós tão insignificantes! O Divino passou a representar para toda a companhia a redenção. O enviado dos céus para salvar o mano Marinho. Também, com aquele nome e com aquela história de vida…quem poderia não acreditar?

5.
Como disse, corria o ano de 1952.

A gratidão de Divino para com o seu Mário e a dona Nair foi tanta que, daquele dia em diante, tirou documentos e registrou-se com o nome oficial de Adivino Mariano de Campos. Exatamente o de Campos, sobrenome de nossa mãe que, para ele, passou a ser a mãe de verdade que ele nunca conhecera na vida.

Ao longo dos trinta anos que sucederam essa história, Divino jamais viveu longe de nós; um ou outro breve período em que nossos pais o mandavam para São Paulo ficar uns tempos com os irmãos devido às bebedeiras incontroláveis, mas logo ele estava de volta. Roupa rasgada, documentos e dinheiro roubado e a “tribo” do circo esperando de braços abertos.

Divino ajudou a criar o mano e eu. Foi a nossa sombra inseparável nos tempos bons e também nos ruins. Jamais o abandonamos também. Seria impossível, pois não se pode abandonar um anjo que caiu dos céus em nossas vidas. Mesmo que este anjo seja um desastre ambulante, meio maluquinho e alcoólatra de berço. Está dormindo ao lado do corpo de nosso pai Mário/Motinha -e de certa forma, pai dele também- em um humilde túmulo de um tranqüilo cemitério na cidade de Lages, em Santa Catarina, desde 1983 São 45 anos de vida em comum.

Vaga-lumes eternos são assim: nascem, se encontram, brilham intensamente por pouco tempo e depois partem. Livres.

O espetáculo não pode parar.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador; nasceu e cresceu no Circo Teatro Motinha e Nhá Fia de seus pais. Vive na vila de pescadores na Guarda do Embaú, SC.

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