Notibras

O vaga-lume e as formigas

Num tempo qualquer, em uma cidade qualquer, nosso pai vivia observando os pequenos detalhes de tudo. Não o tecido pronto, mas a semente do algodão; os cílios ao invés dos olhos; o cair da chuva e não o rio/mar que ela forma. Entre os exercícios de investigação avançada havia um que ele mais gostava: olhar o mundo das formigas em contraponto com a vida dos homens.

Certa tarde – a primeira de tantas outras tardes no quintal de nossas vidas -, deparei-me com nosso pai agachado e assim ficou por mais de uma hora. Falava sozinho. Frases soltas aparentemente desconexas:

— Olha que beleza… cada uma sabe o caminho… formiga não pensa!… o homem trabalha errado; a cidade é um grande formigueiro.

Permaneci debruçado no parapeito da janela do sobrado do hotel observando nosso pai. Lá estava ele novamente imerso num mundo só dele e de suas amigas formigas. Não era uma observação comum. Parecia refletir sobre o sincronismo dos sistemas, as estruturas das relações, os trajetos, as idas e vindas, as proporções e relações entre peso, tamanho e força de cada inseto e o material colhido a ser transportado. Aos poucos, fui entendendo que as formigas seriam, no entender dele, uma espécie de espelho da sociedade humana. Pelo menos deveria ser o ideal; uma espécie de sociedade perfeita a ser almejada pelos humanos.

Nosso pai sentia o mesmo também pelas abelhas. Elegeu as formigas como objeto de pesquisa cotidiana pelo fato delas não terem asas e portanto permanecerem com os pés -digo, as patas? sei lá!- no chão. Passei a observá-lo ao mesmo tempo em que ele observava as formigas mas sem que ele percebesse a minha atividade.

Pelo corredor da cozinha chegavam os cheiros apetitosos da comida de dona Bárbara, a cozinheira. Naquelas horas, o hotel parecia transfigurado em um concurso culinário de mestras feiticeiras. Mesmo assim, permaneci firme. Resoluto em minha cumplicidade. Ao lado do pai, imóvel e calado, o Divino parecia um Sancho Pança esquálido mas igualmente fiel àquele D. Quixote gordo e cheio de vida. Com os cheiros a sugerirem sabores e pratos do outro mundo -dona Bárbara era mesmo feiticeira!-, viajei liberto no mundo das indagações diante de situação tão inusitada. Como categorizar meu pai observando aquelas formigas “irresponsáveis”? E o tempo “perdido” naquela tarde quente e lenta? E as tarefas à cumprir? E a atenção para com nossa mãe e os seus filhos? Indignei-me.

Outra coisa me intrigava profundamente: nosso pai olhava e olhava e media, com finas varas de bambu, as distâncias imaginárias das trilhas deixadas pelas enormes formigas. Enormes para o mundo lá das formigas -pensava eu. Eram formigas desproporcionais, daquelas com duas grandes garras. Para mim, leigo no assunto, pareciam caranguejos longe do mar. Eram seres vivos com uma incrível capacidade de coletivização e possuíam uma sociedade organizada, altamente estratificada, com hierarquias, estames, funções e tudo. Claro que só fui saber dessas coisas quando desci de onde me encontrava e corri para o quartinho/biblioteca do hotel. Estava tudo lá na enciclopédia Delta Larousse. Eram formigas saúvas cortadeiras, típicas da terra brasileira. E mais: eram tão perigosas que até o escritor Monteiro Lobato havia liderado uma campanha contra elas, décadas atrás, cujo slogan era: Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Porque nosso pai observava as formigas? Não todas as formigas terráqueas e sim aquelas habitantes do quintal de nosso hotel?

Naquela noite, após servirmos o jantar aos hóspedes no grande salão, sentamos para a refeição e eu ousei uma investida, como quem não quer nada:

— O “velho”, sabe que eu fiquei te vendo a tarde toda lá no fundo do quintal?

— É mesmo, Beto! E aí? O que você achou?- respondeu o pai tranqüilo entre uma garfada e outra.

— Sinceridade? Te achei meio maluco! Você falava sozinho, media o chão com aquelas varinhas de bambu, ficava agachado um tempão…e o lance mais loco: o Divino junto com você parecia também malucão, pó, velho!

O pai permaneceu calado, por alguns segundos, mastigando calmamente a comida da dona Bárbara. Depois sorriu:

— Sabe, Beto, as formigas têm muita ciência…elas são organizadas e trabalham juntas! Mas o que eu mais gosto mesmo é inventar o quê fazer, jogar com o tempo… Você lembra do circo? então, lá a gente trabalhava à noite, nas funções do espetáculo; durante o dia a gente inventava coisas para fazer, encontrávamos um riozinho próximo da cidade em que estávamos, costurávamos o pano do circo rasgado com a ventania da madrugada anterior, ensaiávamos as peças e os shows musicais, a gente conversava mais, contava histórias, lembra?…

— É mesmo, pai! Era muito legal…não tinha pensado nisso, não! -respondi envergonhado por questionar um cara tão amigo quanto ele.

— Então, filho, aqui no hotel é um pouco diferente, nós estamos trancados aqui e o trabalho é o tempo inteiro; os hóspedes não podem esperar…chegam, ficam e partem o tempo todo. O que fazer para ocupar esse tempo? Eu fico espiando as coisas, brincando com o Divino, brincando de ser formiga..é! parece maluquice mas não é, não! e, olha, a gente já aprendeu um monte de coisa muito boa nesses dias! Na semana que vem vamos tentar com os vaga-lumes…é muito difícil, eles não são seres da cidade, aqui é tudo muito artificial, as luzes, os prédios, o asfalto, essas coisas, sabe…mas eu e o Divino já descobrimos; só que tem de ser à noite, quando o quintal fica bem escurinho, aí a gente pode enxergar todos eles…eles vêm toda noite no nosso quintal…chegam piscando e piscando e depois formam nuvens, dançam e dançam e depois se vão…não sei pra onde. Na noite seguinte eles voltam alegres e cheios de luz. Isso vai ser muito bom, bom mesmo, Beto!… Quer brincar com a gente?

Lembrei-me de uma música do Paulinho da Viola que acabara de aprender a tocar no violão:

“tinha eu catorze anos de idade quando meu pai me chamou…perguntou-me se eu queria estudar filosofia, medicina ou engenharia…tinha eu que ser doutor”.

Pois eu acabara de completar quatorze anos de idade e corria o ano de 1970. O Brasil era um “País que ia pra frente” e segundo os militares, a igreja e a classe dirigente nacional, a saúva não acabaria mais com a terra brasileira. O grande perigo que rondava as nossas casas, agora, eram os comunistas comedores de criancinhas. Hoje, entendo melhor as metáforas sobre as formigas e a cidade-formigueiro de que falava meu pai.

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*Crônica do livro Céu de Vaga-lumes: Andanças e Lembranças de Motinha e Nhá Fia e o Circo Imaginário (Amazon 2005).

*Gilberto Motta: jornalista, professor, escritor. Nasceu num circo teatro rodando pelo interior do Brasil. Estudou, fez mestrado e virou professor. Aposentou-se há alguns anos e vive na pequena comunidade da Guarda do Embaú SC. De lá, envia os sinais de fumaça através de seus textos e garrafas de algoritmos náufragos.

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