“I may not be as strong as I think but I know many tricks and I have resolution” (H.)
Olhou ao redor e percebeu-se minúsculo diante de tamanha beleza. O azul do mar, o frescor daquele novo cenário, o som dos pássaros. Tudo parecia um sonho se comparado aos terrores da guerra que acabara de presenciar.
Se recordou dos tempos de infância quando acompanhava os pais à praia. Aquele clima litorâneo e a sensação que lhe provocava parecia ser a definição do paraíso. Nessas ocasiões, renovava sempre a promessa de que um dia moraria à beira do oceano.
Curioso o destino, às vezes nos conduz à realização de nossos sonhos, por caminhos inimagináveis. O homem experiente de agora era bem diferente da criança de coração puro e inocente que fazia votos para com o mar. O homem de agora tinha a alma dilacerada, a mente e o coração atormentados pelas imagens que presenciara. O barulho das ondas lhe tranquilizava. Os tons azuis apelavam a memórias antigas e lhe faziam se lembrar de um conceito há muito esquecido; a paz, a certeza do equilíbrio entre os seres e a natureza.
Entrou no mar, sentiu a temperatura da água tocar o seu corpo, o cheiro revigorante de água salgada, a textura da areia que ancorava bem seus pés ao momento presente. Fechou os olhos e entregou-se às ondas.
Ele sabia que seus tormentos não podiam ser apagados, aquelas lembranças lhe acompanhariam pelo resto de sua vida. Mas tinha a certeza de que se havia uma memória que merecia acompanhar-lhe em seus últimos momentos, essa seria a visão do mar, a lembrança de seus dias verdes, a liberdade que só se experimenta quando se é criança.
Esboçou um último sorriso, se orgulhou de ter se mantido fiel à si mesmo e realizou o seu compromisso: Aquela praia seria a sua morada, o mar o seu lar eterno, até que a sua composição se desintegrasse e, então, não mais fosse gota d’água, mas um só com o oceano.
