Dizem que a madrugada é das putas,
dos poetas
ou dos viciados.
E eu me pergunto, em silêncio:
qual deles eu seria?
A mulher que oferece o calor do próprio corpo
em troca de algum dinheiro,
negociando a própria febre
para atravessar a noite.
O viciado que entorpece corpo e alma,
buscando numa substância qualquer
um atalho para outra realidade
menos dura que a lâmina do dia.
Ou o poeta
tão parecido com os dois…
que também se despe,
que também se arrisca,
que também troca calor por sobrevivência.
Oferece o incêndio das palavras
para quem ama,
como quem estende um cobertor invisível
sobre o frio do mundo.
Não vende o corpo,
não injeta substâncias,
mas fabrica vertigens.
E talvez seja isso:
alguém que atravessa a madrugada
com as mãos cheias de linguagem,
tentando levar para outra margem
quem decide ficar.
………
Dona Irene nasceu no Piauí, passou a infância em Caxias, no Maranhão, e construiu sua trajetória em Brasília. Servidora pública federal, já viveu também no Sul do país. Além de colunista de Notibras, comanda o perfil @donairene13 no “X”, reunindo graça, ousadia e um olhar atento sobre a vida.
