Abrir esta edição especial do Café Literário de NOTIBRAS é entrar num território em que a escrita não serve de mero adorno para a data, mas de corpo, consciência e permanência. O 8 de março, aqui, não aparece como pretexto festivo nem como ritual protocolar. Aparece como matéria viva, atravessada inteligência, por memória, inconformismo, delicadeza, lucidez e linguagem. As autoras reunidas neste dia não se limitam a celebrar a mulher: elas a pensam, a narram, a defendem, a interrogam e a inscrevem, cada qual com sua forma de ver e dizer, no centro das urgências do nosso tempo.
Fabiana Saka abre o conjunto com um conto de construção segura e inteligência psicológica. Diria mesmo que psicoterapêutico. Ao pôr em cena o embate entre Zélia e Laura, faz mais do que opor visões geracionais: ilumina os resíduos do silêncio, os pactos de sobrevivência e as marcas íntimas de um tempo em que suportar era confundido com força. Logo adiante, Cris Guedes escreve com nervo e densidade ensaística, recusando toda domesticação da experiência feminina. Sua prosa é incisiva, ferida e consciente, e não pede absolvição para existir. Sarah Munck, em seu poema, oferece uma voz de alta elaboração lírica, em diálogo com a tristeza, o excesso de sentir e a ancestralidade que pesa e sustenta. Há ali uma poeta que conhece a extensão do sofrimento, mas também a insistência da vida.
Em Dona Irene, a linguagem ganha temperatura de vigília. “Ofício da madrugada” trabalha com uma matéria intensa, na qual a poeta surge como alguém que também se expõe, também se arrisca, também atravessa a noite à procura de sentido. O poema tem sobriedade e febre na medida certa. Hannah Carpeso comparece com dois textos marcados por introspecção, contenção e mergulho. Entre a mulher que guarda a voz até o momento exato de falar e a figura que se reconhece nas águas, há um percurso de elaboração íntima, de recomposição do eu, de busca por uma inteireza possível. Thalita Delgado, por sua vez, captura o desconforto contemporâneo com rara nitidez. Seu texto pensa a cultura do julgamento com um senso agudo do presente e transforma inquietação em reflexão viva, sem perder mobilidade nem pulso.
Mércia Souza escreve com a autoridade de quem conhece por dentro os mecanismos da interdição. Seu texto tem a força dos relatos que não se escoram em abstrações: fala de violência simbólica, de desautorização, de controle, de humilhação, mas também da recusa em se curvar. É um depoimento que se converte em posição ética. Rachel Gomes de Lima alcança, em sua crônica, um belo grau de maturidade literária. A partir de um tênis consertado, de sapatos que já não servem e de um corpo que vai mudando com a idade, ela chega à desigualdade social, ao amadurecimento feminino e às passagens interiores que pedem outro passo, outro número, outra vida. Luzia Couto traz a nota da delicadeza sem frouxidão. “Partida das Auroras” é um poema de despedida e permanência, de dor elaborada em música e imagem, de esperança que não se exibe, mas respira.
Sandra Villaverde escolhe um gesto preciso: recuperar as formulações misóginas de Schopenhauer para, contra elas, reafirmar a presença concreta e incontornável das mulheres na vida intelectual e social. É um texto breve, mas firme, e acerta ao mostrar que a história feminina se encarregou de desmentir muita teoria arrogante. Marcela Hallack, com sua tríade poética, amplia o escopo desta edição. Em “A menina e as mulheres”, “Notícia de agosto” e “Taquara rachada”, reúne genealogia, brutalidade e memória, sem perder domínio verbal. Sua poesia conhece o peso do mundo e ainda assim preserva a voltagem do gesto poético. Luísa Nogueira, com excelente senso de composição, costura a lembrança de Gilvany aos debates globais sobre trabalho, clima e futuro. Seu mérito está em devolver centralidade à mulher anônima, àquela que sustenta o cotidiano sem jamais entrar na fotografia oficial.
Emanuelle Nascimento escreve com clareza conceitual e gravidade humana. Seu texto recusa o verniz comemorativo e recoloca a questão feminina no plano em que ela de fato pertence: o da preservação da vida comum. Ao afirmar que, quando uma mulher é morta, o mundo perde futuro, ela não recorre a efeito fácil. Formula, com exatidão, a dimensão coletiva de uma violência que ainda insiste em se repetir. Tania Miranda chega com uma prosa franca, direta e necessária, voltada para o trabalho invisível, para a dupla jornada, para o cansaço histórico transformado em rotina. Sua escrita não enfeita a denúncia, e por isso mesmo atinge. Edna Domenica encerra a reunião com um texto de bela maturidade moral. Seu “coração triste” e seu “coração alegre” recusam simplificações e acolhem, ao mesmo tempo, o espanto diante da barbárie e a confiança nas conquistas, nas lutas e nas presenças femininas que abriram caminho no mundo e na literatura.
O mérito maior desta edição talvez esteja justamente em não tentar uniformizar essas vozes. Aqui, nenhuma autora serve de ilustração para a outra. Cada uma comparece inteira em sua dicção, em sua temperatura, em sua maneira de organizar a indignação, a delicadeza, a memória, a crítica ou o assombro. O resultado é uma publicação coesa sem ser repetitiva, múltipla sem se dispersar, forte sem precisar gritar o tempo todo. É literatura comprometida com a verdade, com o nosso tempo, a vida tratada com exigência e frescor de literatura.
Num tempo em que tantas datas são consumidas pela pressa e pela superfície, o Café Literário de NOTIBRAS faz um movimento mais raro: oferece leitura com espessura e profundidade. Ao reunir estas autoras tão especiais no Dia Internacional da Mulher, não apenas presta homenagem, mas toma posição editorial. Afirma que a escrita das mulheres não ocupa lugar acessório na interpretação do presente. Ao contrário: é protagonista e ajuda a entendê-lo, a desmascará-lo e, em alguma medida, a refazê-lo.
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Ju Trinxet é editora-assistente de Notibras, na Seção Café Literário.
