Um dia, um garoto chamado Bento, pelas janelas turvas da loja da família, especializada em especiarias, observava a grande atração da cidade. Em frente à loja havia uma ponte e, ao longe, no fim dela, uma ilha. Bento se perguntava o que poderia existir ou habitar naquele pedaço de terra para onde, todos os dias, tantos turistas iam.
Ainda pequeno, desobedecia a mãe e, em vez de separar a páprica do açafrão, decidiu perguntar aos visitantes o que havia na ilha. O máximo que recebia era um: “Ei, moleque, sai da calçada!”. Mesmo assim, insistia em pensar: “Um dia vou crescer, atravessar essa ponte e ser feliz”.
Dedicado, voltou ao trabalho e ajudou a mãe ano após ano. A pergunta, porém, não o deixava. Até que, no dia 22 de março de 2002, completou dezoito anos. A mãe, orgulhosa, disse: “Olha meu filho, tão crescido… já está um rapaz”. Ele pegou a mochila e partiu em sua jornada para ir até a ilha.
Passaram-se seis dias de caminhada, até que encontrou um vão enorme no meio da ponte. “Como vou atravessar isso?”, pensou. Então deu quatro passos para trás, respirou fundo, tomou impulso e saltou. Ao cair do outro lado, correu em direção à ilha sonhada, como se não pudesse perder mais nada pelo caminho.
De longe, ouviu gritos infantis e felizes. Estranhou aquele som vindo do lugar que imaginava perfeito. Ao se aproximar, viu apenas uma criança, cantarolando uma música inventada enquanto chupava um pirulito devagarinho.
Curioso, Bento gritou:
— Ei, moleque!
O menino se virou lentamente. Foi então que Bento percebeu: era ele mesmo, em outra idade. Congelou por completo e deixou escapar uma lágrima. Naquele instante, entendeu que tinha imaginado um paraíso sem preocupações e que a promessa do caminho para o “fácil” da vida sempre cobra caro para existir.
Quando enfim pisou na ilha, deparou-se com o nada. E compreendeu que tudo aquilo era uma visão: uma ilusão que a ganância lhe havia oferecido.
A ponte era o caminho da ganância; o vão, os conselhos alheios; e a tão sonhada ilha, a consequência de tudo isso.
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Francisco Filipino, mineiro de Juiz de Fora, tem 11 anos e é filho do poeta Daniel Marchi. Contribui regularmente para Notibras com suas artes criadas digitalmente.
