Diogo, poeta visceral, não via sentido no rigor formal de métricas parnasianas. Qual a razão de buscar no dicionário os vocábulos que se encaixassem perfeitamente em decassílabos alexandrinos? Com ele, as palavras precisavam carregar sentimentos próprios.
Álvaro, colega de repartição em Brasília, discordava do quase rival. E, caso não fosse pela política de boa vizinhança, as coisas poderiam tomar outro rumo. Não duvide da capacidade de um poeta amontoar ódio no peito. Ou você imagina que sejam todos ajanotados?
A derradeira sexta-feira do mês era quando os dois e mais cinco ou seis outros fazedores de estrofes se reuniam em um café na Asa Norte, de propriedade de uma gaúcha e uma mineira, há tempos radicadas na capital. E as duas faziam questão de abrir o sarau para declamações, todas devidamente aplaudidas com entusiasmo, independentemente da qualidade do poema.
— Você viu, Diogo?
— O quê?
— Como o público reagiu aos meus versos?
— Da mesma forma que fazem com todos.
— Tu tá é com ínveja, Diogo!
— Inveja desse seu anti-romantismo?
— Você acha mesmo?
— Até a matemática tem mais romantismo do que toda essa rigidez.
Álvaro, apesar de sentir aquelas palavras como punhaladas, não teve ânimo para discutir com o amigo. Foi para seu pequeno apartamento logo ali. Mal entrou, fitou-se no espelho da sala. Uma mecha dos cabelos castanhos sobre a testa o incomodou. Ajeitou-a, mas, talvez por petulância daqueles fios, eles lhe caíram próximo à sobrancelha arqueada.
O sujeito gostou da nova aparência. Talvez Diogo estivesse certo. As palavras têm voz.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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