Eu sei que a gente tem sentido raiva e muita vergonha desse Congresso. Não é exagero. Eles andam fazendo cada absurdo que chega a parecer inacreditável. Deputados e senadores, sem qualquer pudor, defendendo pautas desonestas, negociando interesses próprios e tratando o dinheiro público como se fosse propriedade privada. O orçamento secreto é um descalabro. As emendas impositivas, as emendas Pix… tudo isso vai minando a nossa confiança e deixando qualquer pessoa minimamente consciente desanimada com a política.
Pra quem não acompanha tão de perto: o chamado orçamento secreto é um mecanismo que permite a destinação de recursos públicos sem transparência, sem que a sociedade saiba exatamente qual parlamentar indicou o dinheiro e para onde ele foi. É a institucionalização da falta de controle social. Já as emendas impositivas são aquelas que o governo é obrigado a executar, independentemente de prioridade técnica ou necessidade real, o que muitas vezes engessa políticas públicas importantes. E as emendas Pix permitem transferências diretas de recursos para estados e municípios, com fiscalização frágil e pouca clareza sobre o uso final do dinheiro. Na prática, é terreno fértil para desperdício, clientelismo e corrupção.
Diante disso tudo, é natural sentir desalento. Dá vontade de largar tudo, de dizer que “política não presta” e virar o rosto. Mas deixa eu te contar algo que também dói admitir: a culpa não é só deles. É um pouco nossa também. Minha e sua.
Independentemente do seu espectro político, é inaceitável votar em candidatos e depois seguir apoiando parlamentares que defendem orçamento secreto. Não dá para fingir surpresa depois. Não dá para terceirizar toda a responsabilidade. Votar não é só apertar um botão a cada quatro anos; é assumir compromisso com o que aquele candidato defende e pratica.
É nossa responsabilidade escolher pessoas decentes, independentemente do partido. É nossa responsabilidade cobrar dos parlamentares do nosso estado um posicionamento ético, coerente, transparente. Cobrar publicamente, questionar, constranger quando necessário. Democracia não é torcida organizada nem idolatria política. Democracia é vigilância constante.
Se a gente quer um Congresso melhor, não basta apontar o dedo. É preciso olhar para o próprio voto, para as próprias escolhas e para o silêncio que, muitas vezes, acaba sendo cúmplice. A mudança começa ali, no que a gente tolera e no que a gente decide não tolerar mais.
